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Histórias de Seu Dadinho
Boas lembranças nos trazem o Jardim de Mar de Espanha, ponto de encontro dos mardespanhenses em seu bordejo noturno que ia do coreto até à entrada do cinema. Um vai e volta frenético. E tudo embalado ao som do serviço de alto-falantes, chamado também de Alegria da Praça que ficava na loja do Sr Geraldo Gouvêa, mais conhecido por Seu Dadinho. Sua venda ficava ao lado do Hotel Castro. De seu armarinho, alguns fios ligavam seu toca-discos e amplificador a um alto-falante tipo corneta colocado em uma árvore. Nas noites de sábado e domingo, Seu Dadinho ia até sua venda tocar seus discos que embalaram os que passeavam no Jardim, indo e voltando.
Seu filho Geraldo Magela Gouvêa nos conta um pouco das lembranças de seu pai:
" Meu pai Geraldo Gouvêa, mais conhecido pelo apelido carinhoso que trazia desde a infância, nasceu em Pequeri, 1916.
Ainda jovem aventurou-se com seu irmão para as bandas de São Paulo indo se estabelecer na cidade de Santa Adélia. Depois de algum tempo mudou-se para o Rio de Janeiro onde trabalhou como garçom no antigo Café Nice, na Avenida Rio Branco.
O antigo Café Nice, situado na Avenida Rio Branco no Rio fechou suas portas em 1954 e o prédio foi demolido.
Tempos depois, montou um pequeno comercio em Mar de Espanha. Casado com Maria Teresa Halfeld, filha do José Bandolim e D. Luiza Guimarães. A primeira filha do casal, Rita de Cássia faleceu aos 6 anos de idade. Logo depois nasceram Iara de Fátima Gouvêa e Geraldo Magela Gouvêa . O casal se separou em 1965 "
A eletricidade chegou a Mar de Espanha em 1919. Logo em seguida chegou o cinema. Mar de Espanha possuía três salas praticamente vizinhas. O maior e mais longevo foi o Cine Moreira, que levava o nome de seu primeiro dono, Luiz Moreira. Possivelmente na década de 1940, o cinema foi arrendado por Gibran Jorge, que viria a ser cunhado de Dadinho (Casou-se com Semíramis Gouvêa – Tia Filinha). Dadinho auxiliou Gibran na administração do cinema que passou a se chamar Cine Theatro Modelo. Foi projetista, fazia os cartazes, colagem das fitas cortadas, fazia propagandas. Ainda jovem, eu, recebia as latas com as recebia as latas com as películas que vinham de Juiz de Fora pelo ônibus, que o motorista parava em frente à loja para poupar o trabalho de apanhá-las no rodoviária.
Nos dias anteriores ao natal, a pequena loja de meu pai fervilhava. Vendia-se muito. Eu, ainda criança o ajudava juntamente com outros temporários além do empregado da loja. Tinha uma freguesia fiel. Ficava aberta até mais de meia noite para atender aos que esqueceram de comprar os presentes.
Na manhã seguinte, lá estava Dadinho, para dar presentes às crianças pobres que lá apareciam. Diga a elas que foi Papai Noel que pediu para ele entregar pois está muito atarefado.Isso mesmo! Meu pai era comerciante, mas profundamente caridoso. Tal caridade inata pois não era devido a preceitos religiosos, os quais não professava. Todos os dias esperávamos passar em frente à loja o cego Sr. Jovino, para dar a ele as esmolas que pedia. Meu pai dava-me as moedas para depositar nas mãos do sr. Jovino. Ele trabalhava em uma fábrica de fogos e um acidente o fez perder a visão.
"Não só de alegria vivia o alto-falante , mas era usado também para comunicados fúnebres que eram bem tristes, onde ele agravavando a voz , em sinal de respeito, comunicava a local do velório e horário do sepultamento. Havia anúncios de todo tipo e Dadinho nunca cobrou um centavo sequer por este serviço. Foi considerado um serviço de utilidade pública. Era usado, segundo nos informa Magela, o tema de abertura do filme Ben Hur de 1959 de autoria de Miklós Rozsa.
Meu pai não falava de política. Perguntei a ele várias vezes em quem ele votaria, mas nunca me revelou. Disse apenas uma vez que se optasse por algum partido, perderia os fregueses do outro partido. Apesar de beber e fumar, meu pai me aconselhava a não o fazer. Ficou tremendo de raiva quando por um descuido meu, ele me surpreendeu soltando uma baforada. Não falou nada mas seu olhar me disse tudo.
Meu pai morreu em 1983.
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| Iara e seu irmão Geraldo Magela em foto recente de 2023, gentilmente cedida por ela. |
"Embora meu pai gostasse muito de músicas orquestradas" acrescenta Iara, sua filha, "ele colocava muito os sucessos da época que os namorados pediam. E meu pai também fazia propaganda de programas do governo como campanha de vacinação, MOBRAL e nas datas comemorativas, Natal, Dia das Mães e 07 de Setembro."
Era muito comum o oferecimento de música para aniversariantes e o famoso ''alguém oferece essa música para alguém que está de calça preta e blusa azul" Gostaria de saber se alguma vez, meu pai percebeu que a descrição da roupa para quem a música era oferecida era da minha própria roupa" declara Iara morrendo de rir.
E na opinião de sua filha Iara "A paixão de papai pelo cinema deveu-se ao fato de quando estava trabalhando no Rio no Café Nice, em suas horas de folga frequentava a Cinelândia e se encantava com a quantidade de cinemas existentes ali na época. Acredito que o gosto pela música, foi aumentado pela convivência com meu meu avô materno, Zé Bandolim , um apaixonado pela seresta.
Um longo fio levava o sinal até ao alto-falante que ficava fixo em uma grande árvore no jardim. O crescimento desta árvore “engoliu” o alto-falante e o tempo acabou por derrubar essa árvore há poucos anos. Músicas de Roberto Carlos, Frank Purcel, entre outras românticas da época eram tocadas no local.
Nunca
foi comentado, mas acredito que o Alegria da Praça, o sistema de comunicação,
tenha tido de certa forma uma influência da mamãe, que foi locutora e rádio
-atriz em algumas emissoras de rádio em Juiz de Fora . Era muito eclético, mas
nunca escondeu sua preferência pela música orquestrada, tendo Frank Pourcel
como referência, bem como era notória sua paixão por Roberto Carlos. Amava
assistir filmes e séries na TV. Faroeste, dramas e não perdia um episódio do
Planeta dos Macacos."
Não tinha muito estudo, mas era muito culto. Comprava para nós, várias enciclopédias que ficavam sob "sua guarda" e na verdade ele lia muito mais que nós. Tinha muitos livros sobre psicologia, história, romances que lhe davam grande prazer e conhecimento.
Incentivava-nos a ler. Desde crianças tínhamos "conta" no bar do tio Tãozinho e posteriormente do Alberto , para comprar os gibis que quiséssemos.
Mamãe e papai ficaram muitos anos separados, mas quando ele adoeceu, ela mudou-se para uma extensão da nossa casa para cuidar dele, e o fez até que ele morresse.
Ah! Um momento histórico no Alegria da Praça, foi quando o Palhaço Carequinha (George Savalla Gomes) esteve na cidade para fazer um show e através do alto falante na loja, brincou com as crianças. Não sei de onde surgiu tanta criança "invadindo" a loja.
Disponível em:https://pt.wikipedia.org/wiki/Carequinha_(palha%C3%A7o)
O escritor Nicola Falabella relata muito sobre Seu Dadinho em seu livro de memórias "Antes que a luz se apague"
"Gibran a batiza de Cine Teatro Modelo. E alardeia que é a melhor da Zona da Mata! Pelo palco do Modelo passam dramas e comédias encenadas por companhias cariocas, mágicos, faquires e sanções que costumam lançar desafios aos moradores da cidade... e até uma trupe de fantoches que possibilita ao inteligentíssimo garoto Rubinho Padilha, nosso conterrâneo assenhorar-se dos segredos da arte, a ponto de após a partida da companhia, apresentar espetáculos semelhantes, com bonecos feitos por ele mesmo.
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| Gibran e sua esposa D. Semíramis ( Filhinha), irmã de Dadinho. Foto extraída do livro "Antes que a luz de apague" de Nicola Falabella |
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Apavorado, começo a gritar pela ajuda dos moradores, principalmente por me ocorrer a lembrança de que a casa tem fama de ser mal- assombrada.
Gibran é empresário dinâmico dotado de imaginação fértil. Além de anunciar, mediante programas impressos tipograficamente, a exibição dos filmes, expõe tabuletas com cartazes nos principais pontos da cidade. De uma feita, contrata o Pirulito, palhaço aposentado, para apregoar com megafone, dentro de uma guarita móvel, o espetáculo em cartaz. Uma das mais originais criações publicitárias do Gibran é a experiência. Ela é precedida pelo ritual do recebimento, na estação da Leopoldina, da lata com o filme programado, que é levado tem carrinho de mão pelo gordo Gibranzinho, sempre acompanhado por ruidosa garotada. O ritual prossegue com Gibran, ao abrir e examinar, compenetrado, sob os olhares de expectativa dos curiosos, as condições do picotado de uma das partes. E termina, via de regra, com a decisão de projetá-la gratuitamente a fim de que os presentes apreciem e recomendem aos demais aficionados. Outra curiosa inovação por ele introduzida em sua sala de projeção: uma lâmpada vermelha, instalada ao lado da tela, a qual é acesa, alguns segundos antes de terminar a parte, com a finalidade moralizadora de alertar casais românticos descuidados...Para ajudá- lo na administração do cinema, Gibran conta com o seu cunhado Geraldo Gouveia, o Dadinho rapaz, inteligente e trabalhador.
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Ele tem uma irmã de nome Margarida, minha colega de classe no grupo escolar e uma das minhas primeiras namoradinhas... Além de cuidar da programação, Dadinho já desempenha a importante função de projecionista. Ajuda- o na colagem de folhas de papel em branco sobre as tabuletas, para nelas serem montadas fotos e cartazes coloridos e pintadas as bombásticas expressões de propaganda do filme a ser exibido. Dadinho está sempre lendo as revistas a Cena Muda e Cinearte que o mantém informado das novidades do mundo do cinema.
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| Rubens Padilha e Dadinho. Foto extráida do livro "Antes que a luz se apague " de Nicola Falabella |
Os discos Coledisc
Quem não se lembra desses discos na década de 60? Eram frequantemente tocados no alto-falante ao lado das grandes orquestras como Paul Mauriat, Ray Coniff, Percy Faith e outras. Eram vendidos pelo correio ou por vendedores de enciclopédias. Os nomes eram fictícios mas os arranjos de qualidade.
Segundo o blog Toque Musical https://www.toque-musicall.com/?p=3729 "A Coledisc era um selo que produzia e distribuía música de maneira estritamente comercial, voltada para um formato, geralmente, de coleções como esta. A impressão que eu tenho é que a Coledisc trabalhava com estoques, sobras e projetos fonográficos da chamada ‘segunda linha’, muitas vezes versões de sucessos da época interpretadas por músicos fantamas, ou melhor dizendo, músicos cujos os créditos eram dispensados em troca de outros, pomposos e pretensos nomes internacionais. A ideia era criar gêneros e a esses dar um nome apropriado. Em outras palavras, produziam discos com artistas inventados, pseudônimos internacionais, que ajudavam a vender melhor seus produtos."
Se estiver interessado é só clicar no vídeo que incia uma longa playlist de sucessos instrumentais muito comuns nos 60 e muito tocados no sistema de alto -falantes de Seu Dadinho
"Me surpreendi com o barulho das luzes se acendendo no jardim. Já era noite e com isto a descoberta: pessoas passeavam de cá para lá e de lá para cá. Os bancos tomados. Todos ocupados. O jardim fervia, fervilhava, entrava em ebulição, explodia em um frenesi alucinante no movimento para seus vários lados. Podia chover pedra, fazer frio, calor ou o que fosse que a presença era constante. O meu desejo maior era frequentar aquele lugar. Comecei a frequentar a missa para depois dar umas voltas no jardim e enquanto as pessoas davam uma volta eu dava logo duas. Chegava, passeava, olhava, vigiava, acompanhava, fiscalizava, apreciava...
E tudo era mais ou menos assim. As 18:00, a oração da Ave Maria na matriz e o padre sapecava uma missa. Então passava a vigorar o som do jardim. O quente do início da noite era The Fevers, aquarius, Roberto Carlos, Vanderlei Cardoso, Jerry Adriane, Carlos Imperial e a turma da pilantragem, Simonal. Depois Alan Parsons, Aeroporto, Gigliola Cinquetti, Ray Charles e muitos outros. Os enamorados ficavam na meia lua de cima e na meia lua de baixo.
Ali se encontravam todas as raças, toda classe social e
todas as idades. Ponto de encontro para o lazer, prazer e alegrias. As pessoas
se apresentavam com o de melhor de si e ninguém se importava com nada e nem com
ninguém. Nunca vi momento algum de discórdia ser levado a sério e se
transformar em briga. Ali não. Todos tinham o mesmo direito de ir e vir cada
qual a sua maneira de ser e viver. Assuntos mil, ao som de músicas que se modificavam
em ritmos de acordo com o andar das horas. Eis o espaço dos espetáculos e
espectadores tudo em uníssono com o que se vivia na época no respeito, na
estima, na afeição e desejo de ser e estar ali. Lugar onde a vida corria solta
e se mostrava nos moldes da moda de então no vestir-se, perfumar-se,
maquiar-se, nos balangandãs, calçados, trejeitos, a jeito de ser com linguajar
que o tempo requeria. " Dalva Soares Pereira Magalhães
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Comentários




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É Fernando. Você como sempre nos surpreendendo em sua habilidade em retratar fatos do cotidiano de nossa cidade. Um espectro de história e Cultura para ninguém botar defeito. Parabéns pela forma carinhosa como conduziu toda a pesquisa. Nós merecemos o que há de melhor estou grata pelo seu interesse em acordar tudo isso.
ResponderExcluirObrigado pelo comentário. Acho que agora a proposta está bem definida. O blog já mostrou a sua cara. As pessoas que têm histórias de vida em comum, têm muito a compartilhar.
ExcluirFernando, vc é um artista nato. Orgulho de vc, seu carisma. Queria seu e-mail, p/ enviar para meu irmão João Bosco e queria que vc se cominicasse c/ ele. Ele é violinista e vai gostar de suas publicações mas só usa e-mail. Lucia Cascardo de Gouvea
ExcluirQue prazer tê-la aqui no blog. Acho que achamos o formato ideal. Tentamos o grupo do Facebook, depois o WhatsApp mas não tivemos êxito. Meu email: nandurangel@gmail.com Tenho certeza de que vai gostar do blog.
ExcluirParabéns.
ResponderExcluirEstá história é parte de mim. Vivi essa época e tenho muitas recordações.
ResponderExcluirComo receberás notificações de seus posts? Não acho a opção " SEGUIR"
ExcluirO comentário é muito importante para nós
Excluir.É através dele que interagimos. Obrigado pela participação.
É só clicar nas três linhas que se encontram na página inicial. Em seguida, um menu aparece com várias opções á esquerda.
Excluir.
Obrigado Fernando por resgatar lembranças tão preciosas quase esquecidas na neblina do tempo e da memória. Manoel
ResponderExcluir👍👍👍
ExcluirAmigos, este blog do Fernando Rangel Pinheiro, me deixou emocionado, pois trata-se de uma matéria onde meu pai é figura central. Não tenho no meu vocabulário, palavras para expressar minha gratidão ao "Nandu" por essa maravilhosa matéria que é, para mim e tenho certeza, para muitos mardespanhenses, uma evocação do passado que foi o jardim de Mar de Espanha e a contribuição que meu pai deu às noites de sábados e domingos, embalando com músicas românticas, os corações dos jovens apaixonados. Muitos amores ali começaram. Muitas das árvores guardaram por anos, esculpidos em seus troncos, corações varados por uma flecha de cupido com nomes ou iniciais dos jovens enamorados. Obrigado "Nandu" por esse "tributo" mesmo que póstumo, mas que marcará indelevelmente o nome de meu pai, na história de Mar de Espanha.
ResponderExcluirObrigado Magela! É uma das inúmeras histórias de vida da qual faço parte também. E essa é a função desse blog: resgatar esses relatos que podem estar perdidos no tempo, mas estão cada vez mais nítidos em mossa memória.
ExcluirParabéns Fernando por retratar a história de nós mardespanhenses de forma tão fidedigna.
ResponderExcluirFiz parte dessa história que retratei. É bom a gente sentir que as pessoas gostaram.
ExcluirVoltei no tempo com essa história de muitos de nós.Saudade imensa dessa época maravilhosa de nossa querida Mar de Espanha.Um abraço em todos.
ResponderExcluirSe a tecnologia nos proporciona essas facilidades de comunicação, não podemos subestmá-las. Se temos histórias de vida em comum, temos que compartilhar.
ExcluirParabéns Fernando, como foi ótimo reviver meu tempo de Mar de Espanha, infância e adolescência, Sr. Dadinho , Magela colega de escola. Que indo , muito me encantou .
ResponderExcluirLeonie Rabelo Corrêa.
Grato pelo comentário. Fico satisfeito com sua participação.
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