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Pró-Música: uma ideia que deu certo

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Os clássicos da marcha-rancho Luis Nassif

 


 São Paulo, domingo, 29 de abril de 2001

 

Os clássicos da marcha-rancho

A marcha-rancho foi um dos ritmos prediletos da minha juventude e, acredito, da infância, juventude e maturidade de todas as gerações de brasileiros. Com sua marcação pontuada, mas sem a rapidez buliçosa da marchinha e do frevo, é a música para os momentos mais líricos, para as namoradas mais curtidas, para o fim de noite, quando a madrugada lança seus primeiros raios de sol e a gente entoa nosso hino de todas as manhãs: "Já vem raiando a madrugada / acorda, que lindo / toda a tristeza está sorrindo / pelas luzes da manhã / se abrindo nas cores do céu / O véu das nuvens que esvoaça / que passa pela estrela a morrer / parece nos dizer / que não existe beleza maior / do que o amanhecer", de Vinícius e Ary Barroso, cantada por Carlos Lyra.
Aprendi o "Rancho das Flores" em Santa Rita do Sapucaí, no curto semestre em que tentei ser técnico em eletrônica e voltei boêmio. A segunda parte da música permite um contracanto lindo com "Cidade Maravilhosa", de André Filho.
Se os anos 30 marcam a primeira fase de ouro do rancho, foi nos anos 60 que ele teria seu segundo grande momento, consolidando a sua redescoberta nos anos 50. A bossa nova já deixara seu legado modernizante e havia uma espécie de releitura da música brasileira, já sob novo filtro estético. Por sua vez, os festivais da Record, principalmente por meio de Chico, Vandré e Edu, empreendiam um mergulho nas raízes da música urbana brasileira, recuperando vários ritmos.
Um pouco antes, creio que ainda no governo JK, Tom Jobim e Vinícius haviam composto outro clássico do gênero com um primo irmão da marcha-rancho, um frevo-rancho, um hino extraordinário de amor ao país: "Vem, vamos dançar ao sol / vem, a banda vai passar / vem ouvir o toque dos clarins anunciando / o carnaval e vão brilhando seus metais", que virou uma espécie de paradigma para os ranchos que seriam perpetrados por seus filhos musicais.
Obviamente, desde os primeiros acordes os clássicos das marchas-ranchos haviam se integrado ao nosso repertório: o maior deles, "As Pastorinhas", de Noel e João de Barro, depois "Pequenino Grão de Areia" e, especialmente, "Estão Voltando as Flores", de Paulo Soledade, clássicos dos anos 50.
Mas quem pensava que o melhor da marcha-rancho já havia sido produzido se maravilhava a cada ano com novos clássicos que brotavam dos violões de nossos gênios. Como a extraordinária "Suíte dos Pescadores", de Dorival Caymmi, lançada naquele período em um dos grandes shows da década, que revelou o Quarteto em Cy. O ponto alto da suíte era a marcha-rancho "Minha jangada vai sair pro mar / vou trabalhar, meu bem querer".
Os bossa-novistas e pós-bossa não deixaram por menos. Ainda nos anos 60, com Vinícius, Carlos Lyra compôs outro clássico, "Marcha da Quarta-Feira de Cinzas" ("Acabou nosso carnaval / ninguém ouve cantar canções / ninguém passa mais / cantando, sorrindo, e nos corações / saudades e cinzas foi o que restou"). Pouco depois, Chico Buarque compôs uma das músicas mais cantadas pela juventude universitária da época, o "Rancho das Mascaradas" ("Quem é você / adivinha se gostas de mim"), em dueto com a belíssima Odete Lara.
Naquele mesmo período, nos veios do primo irmão, o frevo-rancho, Edu compôs o belíssimo "Hoje não tem dança / não tem mais menina de trança / nem cheiro de lança no ar". E Geraldo Vandré consagrou-se com o "Olha que a vida é tão linda / e se perde em tristezas, assim, / segue teu rancho cantando / essa tua esperança, sem fim", em dupla com Tuca, uma cantora gorda e alegre, que morreu cedo.
Altemar Dutra, cantor pouco reconhecido, mas imensamente popular, que faleceu no auge da carreira, consagrou dois ranchos muito cantados na época, provavelmente de autoria da dupla Evaldo Gouvêa / Jair Amorim, dois compositores extraordinários, pouco conhecidos das novas gerações. "Sonhei que eu era um dia um trovador / daqueles tempos que não voltam mais".
Depois, o ritmo feneceu. A grande geléia geral da Tropicália, o predomínio dos ritmos do Nordeste, junto do uso mais apurado da guitarra e a própria sofisticação musical dos nossos maiores, recorrendo a ritmos mais complexos, contribuíram para o ocaso da marcha-rancho. O último clássico tem mais de 25 anos, o "Rancho da Goiabada", de João Bosco e Aldir Blanc.
Mas o rancho se eternizará, porque será o ritmo que permitirá, mais de perto, que nossos netos se lembrem de nós, do mesmo modo que nós nos lembramos dos velhos.


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