Postagens em destaque
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
Eny e o grande bordel brasileiro
Nunca houve uma dona de cabaré como Eny Cezarino. Nos anos 50 e 60 ela esteve à frente de um dos mais poderosos famosos e prestigiados templos de sexo do país: a Casa de Eny um verdadeiro cenário hollywodiano recriado na cidade de Bauru no interior paulista.
Lucius de Mello é um escritor e jornalista brasileiro. Doutorando em Letras pela Universidade de São Paulo e Universidade Sorbonne em Paris - através do programa CAPES/ PRINT. Como repórter, trabalhou por 14 anos para a rede de televisão Globo. Lucius de Mello também é pesquisador do LEER, Laboratório de Estudos de Etnia, Racismo e Discriminação da Universidade de São Paulo (USP), Brasil. Mestrado em Literatura Hebraica e Cultura também na Universidade de São Paulo..
https://en.wikipedia.org/wiki/Lucius_de_Mello
Nesta biografia romanceada, fruto de dez anos de pesquisa do jornalista Lucius de Mello,o leitor vai conhecer o cotidiano deste bordel brasileiro. Os clientes famosos e suas meninas prediletas. Os segredos de alcova e os favores polítcos. Fetiches e escândalos. Prazer e vingança. Um mergulho no submundo dos anos dourados. Criada para casar, com uma sólida educação familiar, Eny Cezarino, uma jovem paulistana de origem italiana, poderia seguir tranqüilamente o mesmo caminho reservado às moças da sociedade. Mas o destino lhe reservou algumas surpresas e fez mudar o rumo de sua história. Discreta, bonita e elegante, ela conduziu sua vida como uma audaciosa mulher de negócios. A bela e temperamental moça que entregava marmitas nas ruas de São Paulo, acabou seduzindo muitos homens e construindo seu império do prazer em Bauru. Com a mestria dos grandes narradores, Lucius de Mello transita do passado e dias de glória de Eny à decadência da personagem em seu final de vida, sem que o leitor perca o fio da meada e o interesse no desenrolar da história.
Disponível em: https://www.indicalivros.com/
![]() |
| As noites não tinham fim nessa grande casa. Eny gostava de ver o movimento e fazia questão que tudo fosse do bom e do melhor. Suas festas eram inesquecíveis- como o famoso baile do Havaí |
Nunca houve uma dona de cabaré como Eny Cezarino. Nos anos 50 e 60 ela esteve à frente de um dos mais poderosos famosos e prestigiados templos de sexo do país: a Casa de Eny um verdadeiro cenário hollywodiano recriado na cidade de Bauru no interior paulista. Pela propriedade de 15 mil metros quadrados transitaram celebridades homens de negócios e políticos. A cafetina não media esforços para oferecer conforto e o máximo de prazer aos seus freqüentadores e para isso contava com quarenta quartos, duas suítes, piscina, jardins, saunas, restaurante, bares, salões de festa e claro dezenas de deslumbrantes mulheres.
![]() |
| O ex-presidente Jânio Quadros foi um dos frequentadores da famosa casa de Eny, bem como governadores, secretários de estado, empresários internacionais etc |
Trechos do livro
"Todas as flores do bordel ficavam exageradamente perfumadas quando turco de Jaú chegava e abrir a mala repleta de perfume franceses. Os prediletos de Eny eram “Quelques fleurs”, “Fleurs de Rocaille” e “Cabochard” Só permito que vocês usem um desses três aqui dentro, dizia a dona da casa. São mais refinados e não vão fazer o nariz do cliente virar um tomate de tanto espirrar. E nada de tomar banho, passar pelo corpo todo. Uma gotinha apenas atrás de cada orelha, e nada mais. Perfume francês é bom, tem um ótimo fixador e é por isso que eu só uso eles desde quando era mocinha. Naquele dia, a patroa deu à Zuleika três vidros. Eny também levou um perfume para Valéria, que há mais de uma semana estava internada no Hospital Regional de Psiquiatria para tentar se livrar do vício do álcool. Não era a primeira vez que a prostituto passava semanas em tratamento. Eny gostava muito dela e fazia questão de arcar com todas as despesas. Para você tirar esse cheiro horrível de doença, disse entregando o frasco de “Quelques Fleurs”.
Numa das visitas que fez à moça conheceu Valquíria, uma jovem de 17 anos que estava no mesmo quarto se recuperando de uma tentativa de suicídio.
![]() | |
| Eny era uma da melhores clientes das boas lojas de tecidos de Bauru e das costureiras mais famosas do lugar. Suas moças se vestiam rigorosamente dentro da moda. |
A minha história é muito triste, não gosto de lembrar dela não Dona Eny. Mas uma moça tão bonita como você, meu bem, o que aconteceu para você querer se matar, me conta. O que a senhora acha? O que pode fazer uma moça da minha idade querer a morte hoje em dia? Será que a senhora nem faz ideia? Outras moças na cidade já se mataram por causa disso. Eu mesmo já ouvi falar de umas três. Foi com o engenheiro da CESP, era casado, mas dizia que me amava que um dia ia deixar a mulher para morar comigo. O nome dele é Roberto. Eu trabalhava como operária lá na tecelagem Matarazzo. Nos conhecemos na frente da fábrica. Ele foi buscar um amigo que trabalhava na contabilidade e nós começamos a conversar; depois de uns três meses de namoro já começou a a insistir para que eu saísse com ele... Dizia que eu podia confiar e eu muito burra acreditei Dona Eny... Aí, depois o Roberto se afastou de mim, sumiu... Até hoje eu não sei como aconteceu, mas na mesma semana as minhas amigas da fábrica ficaram sabendo que eu não era mais virgem. Fiquei tão desesperada, com vergonha, medo de ter ficado grávida, medo dos meus pais, chegava no serviço me trancava no banheiro e só chorava. Meu chefe percebeu, começou a me ameaçar de demissão, disse que ia contar para minha mãe que eu não estava produzindo que eu não estava produzindo direito e não tinha mais vontade de trabalhar mesmo. Um dia entrei não sair mais do banheiro. Tomei um vidro inteiro de comprimido de Diazepan e ainda cortei os pulsos. Só não morri porque uma colega de trabalho foi atrás de mim me encontrou caída sobre uma poça de sangue. Me levaram para o hospital e depois meus pais me internaram aqui porque acham que eu estou ficando louca. Foi isso que aconteceu comigo. E quando você sair daqui, vai ser corajosa o suficiente para voltar a trabalhar na tecelagem?
Eny nem esperou que Valquíria respondesse à essa pergunta. Claro que você não teria coragem, que curiosidade mais cruel a minha. Imagine você voltando lá no serviço sendo apontado por todos como a moça que perdeu que se perdeu como engenheiro da companhia energética de São Paulo ou a moça da CESP ou ainda a arrependida que tentou morrer porque perdeu a virgindade..."
![]() |
| "Está na hora de fechar... Nunca vi uma profissional perder para amador" |
Não, isso seria muito castigo, Dona Eny, eu não quero voltar a trabalhar naquele lugar não... Eu quero sumir desta cidade quando sair daqui, estou morrendo de vergonha até dos cachorros... Por que não vem trabalhar comigo? Lá na minha casa tem lugar para você, meu bem, você é bonita, pode ganhar muito dinheiro trabalhando com a gente não é Valéria? Aliás, bem mais do que você ganhava com os Matarazzo. Não sei Dona Eny, eu preciso conversar com a minha mãe antes... Claro, meu bem, só fico com você se ela permitir...
![]() |
| As moças da casa de Eny se vestiam com todo o requinte possível, tal qual as esposas dos frequentadores e usavam os melhores perfumes franceses |
Quando Valqúiria recebeu alta, Eny estava na porta do hospital com um carro de praça. No dia anterior a cafetina já havia convencido dona Lilia a deixar a filha trabalhar para ela. Todo fim de mês vou mandar meu motorista entregar parte do dinheiro que a Valquíria ganhar para a senhora. Vou cuidar muito bem dela, pode ficar tranquila, dona Lilia. Valquíria se despediu da mãe, das enfermeiras e foi para o bordel. No caminho ficou sabendo que iria ganhar roupas novas, sapatos, bijuterias e que teria um quarto só para ela. Vou transformar você numa dama, minha filha. Na primeira semana, a moça não fez sala, como fazia com todas, primeiro Eny quis prepará-la para receber bem os clientes, dentro do padrão de qualidade como que os fregueses já estavam acostumados a ser tratados. Valquíria aprendeu a andar de salto alto, desfilando tardes inteiras pela casa equilibrando o livro sob a cabeça, aprendeu a se comportar numa mesa, usar os talheres, os copos; também foi orientada para saber usar os perfumes adequadamente; como identificar o que fica melhor durante o dia e que deve ser usado à noite; como ser elegante, como combinar as cores e os acessórios na hora de se vestir. Para evitar as outras colegas, quis aprender a fumar, mas nunca conseguiu tragar, e para evitar os escandalosos ataques de tosse, preferiu evitar cigarro até que fizesse bonito com a piteira na boca."
Bibliografia:
Mello, Lucius de Eny e o grande bordel brasileiro, Rio de janeiro, ed. Objetiva 2002
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos








Comentários
Postar um comentário
Sua opinião é muito importante para nós. Se comentar sem o email, identifique-se, POR FAVOR !