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Pró-Música: uma ideia que deu certo

  Se fosse possível definir o Centro Cultural para a música em um verbo , esse verbo seria realizar. Criado em dezembro de 1971 para promover um concerto mensal de música erudita a instituição sem vínculo com o poder público ou fins lucrativos promoveu em 40 anos ininterruptos mais de 3800 eventos gratuitos para milhões de espectadores. ( do livro Centro Cultural Pró-Música, 40 anos, publicado em 2014 pela UFJF e escrito pelas jornalistas Gilze Bara e Lilian Pacce, e organizado pelo vice-presidente do Pró-Música, Júlio César de Souza Santos.)   Para saber mais detalhes do livro, é só clicar Juiz de Fora,  cidade vanguardista de grande prestígio nas artes especialmente na literatura,   de grande vocação cultural, tornou-se   referência também em música erudita. O Centro Cultural por sua vez ajudou a gestar e apoiou o crescimento de diversas manifestações artísticas abrindo as portas de seu teatro, sua galeria sua escola, projetos culturais de outros grupos ...

Rumo ao internato

 

 

Extraído do livro " Antes que a luz se apague " de Nicola Falabella Memórias 2003, Ed. Gráfica Lê, Belo Horizonte



No lusco -fusco de certa manhã de março de 1932, o Nash  cor de vinho do  senhor Alfredo Salomão,   pai do Gilson,  desce devagar nossa rua até parar ronronando bem na frente de nossa casa. Meus pais e eu já o esperávamos. O  banco dianteiro do carro está ocupado pelo motorista  Frissura,  contratado para viagem,  e pelo senhor Alfredo. Este desperta a minha atenção por envergar algo que vejo pela primeira vez: um elegante guarda -pó de linho branco. A indumentária do rico viajante é completada por boina preta que esconde sua precoce calvície.  Gilson também elegantemente trajado,  ocupa sozinho o banco traseiro,  onde espera minha companhia.

 Descendo do carro,  Salomão cumprimenta  meus pais e,  pondo a mão sobre meu ombro, diz afetuosamente:

— Então, Nicola,  chegou a hora de você e o Gilson enfrentarem o internato.

 Acanhado, limito- me a sorrir.

 Estou vestindo,  envaidecido,  terninho novo de brim branco,  camisa de gola aberta,  sapatos também novos ( meio apertados) ; e trago à cabeça atirado com displicência à nuca,  chapéu de palhinha de copa dura.  Lanço  olhar de despedida para as fachadas de nossa casa e do sobrado de vovó Maria,  certo de que não as verei por longo tempo. Fico comovido ao  descobrir atrás das vidraças das janelas do quarto de nossos pais as carinhas risonhas de meus irmãos e irmãs. Vestindo, ainda,  suas camisolas  e pijaminhas  de flanela,  eles veem,  curiosos a cena da minha partida.

 Ainda na calçada,  recebo um abraço de minha mãe. Ela não consegue reprimir as lágrimas,  o que me deixa encabulado,  ansioso por me livrar da cena sentimental. Papai também me abraça e diz:

— Vai com Deus, filho. Estude bastante. Não deixe de escrever. Segurando minha mão,  ele coloca nela algo metálico,  redondo que não sei, de pronto,  identificar.

— Olha, guarda esta medalha. É de Santo Antônio para te proteger. Cuida bem dela. Foi benzida pelo papa!

 Aliviado, subo depressa no carro e minha sento confortavelmente ao lado do Gilson. O NASH desliza  rua abaixo,  passa pelo cinema,  atravessa a Pracinha principal —cujos globos elétricos do poste central ainda estão acesos — dobra à esquerda,  prossegue  diante do Fórum  velho e da cadeia e, infletindo à  direita,   começa a sair da cidade pela Rua Das Flores.

Como viajo sentado à direita, posso observar a casa em que mora. Aparecida. Àquela  hora matutina,  a residência está silente, com  sua porta principal janelas frontais fechadas. Ah! ai meu amor deve estar dormindo tranquila, indiferente ao drama da minha partida..

Gilson, ao lado sorri, ao perceber meu interesse pela casa do tabelião  Nicanor Affonso. Mas nada comenta. Estamos já rodando na estrada  estreita e esburacada de São Pedro Pequeri.  No alto do sítio Pau Grande, surge a primeira de uma série de porteiras que vão nos aborrecer ao longo da viagem.  Gilson eu descemos ao mesmo tempo para abri-la. Ao fazê-lo, ele chama minha atenção:

— Daqui se vê a Capelinha de Santa Ifigênia!  Olha lá...

— É mesmo!

Emocionamo-nos  ao vislumbrar ao longe,  iluminada pelo sol nascente — como branca vela nas ondas revoltas  de um mar de verdes colinas — aquele singelo símbolo de fé cristã erguido por míseros escravos nos primórdios de nossa terra natal.  O grito de vamos embora — proferido por Salomão — tira do enlevo os  dois  mardespanhenses que partem em busca de nossos conhecimentos escolares para tornarem-se, médico um advogado o  outro.

 Deixe para trás os dias de calmaria e tempestade minha infância...

 Rumando para Juiz de Fora ao encontro do ignoto futuro  o Nash desaparece na poeira da estrada...

A igrejinha de Santa Ifigênia é avistada um pouco antes de chegar na cidade

 

 


Comentários

  1. O que me marcou muito no texto foi quando avistaram a igrejinha de Sta Ifigênia. A gente a avistava antes de chegar à cidade.

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