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Pró-Música: uma ideia que deu certo

  Se fosse possível definir o Centro Cultural para a música em um verbo , esse verbo seria realizar. Criado em dezembro de 1971 para promover um concerto mensal de música erudita a instituição sem vínculo com o poder público ou fins lucrativos promoveu em 40 anos ininterruptos mais de 3800 eventos gratuitos para milhões de espectadores. ( do livro Centro Cultural Pró-Música, 40 anos, publicado em 2014 pela UFJF e escrito pelas jornalistas Gilze Bara e Lilian Pacce, e organizado pelo vice-presidente do Pró-Música, Júlio César de Souza Santos.)   Para saber mais detalhes do livro, é só clicar Juiz de Fora,  cidade vanguardista de grande prestígio nas artes especialmente na literatura,   de grande vocação cultural, tornou-se   referência também em música erudita. O Centro Cultural por sua vez ajudou a gestar e apoiou o crescimento de diversas manifestações artísticas abrindo as portas de seu teatro, sua galeria sua escola, projetos culturais de outros grupos ...

Olha o passarinho!

 

Nicolau fica sabendo, por intermédio de seus fregueses, que um fotógrafo está em ação na vizinha Monte Verde.

— Ah... É o meu patrício! — exclama. Melhor oportunidade não haveria para realizar o que com ele combinara no hotel do Mar de Espanha: a foto da família. Através de bilhete enviado por mensageiro especial,  pede a presença dele no arraial. Viajando a cavalo,  o fotógrafo chega prontamente,  trazendo a reboque,  no lombo de um burrico,  duas  canastras de equipamento. A notícia da chegada alvoroça a pequena população local. Todos querem conhecer o homem que tira retratos. Hospedado por Nicolau (que o cumula de gentilezas ) já na manhã seguinte põe-se   a preparar o cenário da sua atuação.  Estende  numa das paredes da casa surrado telão pintado ao óleo,  que mostra em primeiro plano,  arruinada colunata grega a cavaleiro do mar; arma o tripé sobre o qual aparafusa caixa quadrada que tem à frente,  algo parecido com um  fole, e, à culatra,  misterioso saco de pano preto.

Os que vão posar surgem  encabulados,  envergando suas melhores roupas e joias.

 Sob o comando do fotógrafo forma-se o grupo. Na plenitude de seus  quarenta e um  anos,  usando cerrada barba negra e bífida ( que  desce até o peito), Nicolau senta-se numa  cadeira e apoia a mão esquerda no frágil ombro do filho Antônio.  Ao centro, de pé,  Maria Felícia  exibe seu melhor vestido de seda,  pudicamente fechado ao pescoço e com mangas compridas até os pulsos. A saia, rodada,  chega aos tornozelos. Ela descansa a mão esquerda no ombro do marido,  não por exigência estética,  mas para mostrar a pulseira e os anéis de ouro. Jovem ainda, 29 anos, é já mãe de quatro filhos; sua silhueta demonstra  que está esperando o quinto. À sua direita, comodamente sentada,  a babá- parteira metida também  em vestidos de grandes babados,  usa joias emprestadas pela patroa. À frente de Maria  Felícia, suas filhas Rosa (oito anos) e Maria ( quatro)  vestidas a capricho,  usam brincos e colares e trazem à cabeça arranjos de fitas e grinaldas. Ao lado do pai,  o pequeno Antônio,  de apenas  seis  anos,  veste-se como adulto: paletó,   gravata e calças compridas. Ele fixa o olhar inteligente e meigo na objetiva e  exibe, à semelhança do pai,  correntinha de ouro da qual pende medalhão, também de ouro, com o monograma AF.

 Formado o grupo,  inicia o fotógrafo estranho ritual que provoca o riso de curiosos debruçados nos peitoris das janelas da sala.Com a cabeça mergulhada no saco de pano preto,  ele dança com tripé e a câmara de um lado para o outro à procura do melhor enquadramento da imagem. Insatisfeito,  meticuloso, dirige-se,  várias vezes,  ao grupo para corrigir posturas,  ajeitar rosto e braços,  e,   até as dobras dos vestidos.

 Finalmente exclama:

  Attenzzione! Non se mexam !  E apontando o dedo para a objetiva;

— Olha aqui, o passarinho!

 A foto é feita. Aliviados, os que posaram ensaiam abandonar seus lugares,  mas o retratista quer, por segurança, bater uma outra chapa. Repete-se  o ritual, desta vez, porém sem qualquer apelo ao furtivo passarinho...

 Dias depois,  convocado pelo patrício,  Nicolau  vai ao Mar de Espanha para receber as cópias encomendadas.  Ele não esconde sua admiração pelo trabalho:  imagem nítida, papel esmaltado,  brilhante,  colado em grosso cartão de bordas serrilhadas.  Envaidecido,   não se cansar de mostrar a foto aos amigos, fregueses,  ou simples conhecidos De regresso ao Sarandi ( onde seus familiares anseiam  para ver a  novidade) vale-se da filha Rosa, já alfabetizada para fazer no verso de uma das cópias,  dedicatória a sorella Monica que ficara em Lagonegro.

“ Nicola Falabella e sua mulher e filhos oferecem a sua fotografia à sua irmã Maria Falabella, em sinal de amizade. Monte Verde  do Mar de Hespanha, 06 de agosto de 1899”

Extraído do livro " Antes que a luz se apague " de Nicola Falabella Memórias 2003, Ed. Gráfica Lê, Belo Horizonte

Visão atual da capela de N, S. da Piedade do Sarandi que Nicolau ajudou a conservar no final do século XIX (Foto: Lélia Rezende)

 

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