Postagens em destaque
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
Gabriela de Jorge Amado
Tendo a Bahia como cenário de suas narrativas, o escritor brasileiro Jorge Amado cativou o leitor brasileiro e de vários países do mundo, deixando uma vasta obra literária com inúmeras adaptações para rádio, televisão, cinema e histórias em quadrinhos. Um regionalismo aliado a uma forte denúncia social marcaram uma forte presença em suas páginas.
Foi um dos autores mais adaptados para a televisão. Tieta do Agreste, Dona Flor e seus dois maridos e Gabriela, cravo e canela foram telenovelas adpatadas de suas obras e que fizeram muito sucesso.
Na política, Jorge Amado se destaca como o autor da emenda constitucional de liberdade de culto religioso, que hoje consta como 7º inciso do Artigo 141 da Constituição Federal. O escritor falaceu em Salvador em 2001.
O romance de Jorge Amado foi adaptado para a televisão em 1975 pela Rede Globo por Walter Jorge Durst e sob a direção de Walter Avancini com o total de 132 capítulos. Contou com um elenco de primeira grandeza como Paulo Gracindo, Sônia Braga, Fúlvio Stefanini, Armando Bógus, Heloísa Mafalda, Elisabeth Savalla, Ana Ariel entre muitos outros.
Uma antiga adaptação do romance de Jorge Amado se deu no início dos anos 60, realizada pela TV Tupi. Para saber mais
| Uma foto emblemática que muito nos entristece, a nós todos. A telenovela foi produzida na época da Ditadura Militar e os capítulos passavam por rigorosa censura prévia. Essa triste imagem era vista por nós em cinemas, e em muitos programas de televisão. |
Os desenhos da abertura são do famoso artista plástico Aldemir Martins
Trecho extraído do romance Gabriela, Cravo e Canela onde o autor relata o enterro de Doutor Osmundo e Dona Sinhazinha
— Vamos espiar os enterros, menina. Vale a pena!
— Inhora, não. O moço ainda não levantou.
Pulou da cama: como perder os enterros? Saiu do banheiro já vestido,
Gabriela acabava de pôr na mesa os bules fumegantes de café e leite. Sobre a alva toalha, cuscuz de milho com leite de coco, banana-da-terra frita, inhame, aipim. Ela ficara parada na porta da cozinha, interrogativa:
— O moço precisa me dizer do que é que gosta.
Engolia pedaços de cuscuz, os olhos enternecidos, a gula a prendê-lo à mesa, a curiosidade a dar-lhe pressa, era hora dos enterros. Divino aquele cuscuz, sublimes as talhadas de banana frita. Arrancou-se da mesa com esforço. Gabriela amarrara uma fita nos cabelos, devia ser bom morder-lhe o cangote moreno. Nacib saiu quase correndo para o bar. A voz de Gabrielaacompanhava-o no caminho, a cantar:
Não vá lá, meu bem,
que lá tem ladeira,
escorrega e cai,
quebra o galho da roseira.
O enterro de Osmundo despontava na praça, vindo da avenida na praia.
— Não tem gente nem para pegar nas alças do caixão… — comentou
alguém.
Pura verdade. Era difícil imaginar-se enterro mais magro de acompanhamento. Só mesmo as pessoas mais chegadas a Osmundo tiveram a coragem de acompanhá-lo nesse seu último passeio pelas ruas de Ilhéus.
Levar o dentista ao cemitério era quase uma afronta ao coronel Jesuíno e à sociedade. Ari Santos, o Capitão, Nhô-Galo, um redator do Diário de Ilhéus, uns poucos mais, revezavam-se nas alças do caixão. O morto não tinha família em Ilhéus, mas nos meses que ali passara fizera muitas relações, homem dado, amável, freqüentador dos bailes do Clube Progresso, das reuniões do Grêmio Rui Barbosa, das danças familiares, dos bares e cabarés. No entanto ia para o cemitério como um pobre-diabo, sem coroas e sem lágrimas. Um comerciante recebera um telegrama do pai de Osmundo, com quem mantinha negócios, pedindo-lhe tomar todas as providências para o enterro do filho e anunciando que chegaria pelo primeiro navio. O comerciante encomendara caixão e cova, contratara alguns homens no porto para levar o esquife no caso de não aparecer nenhum amigo, não achara necessário gastar dinheiro com coroas e flores.
Nacib não mantivera relações estreitas com Osmundo. Uma ou outra vez o dentista parava no bar, seu ponto era o Café Chic. Tomava um trago, quase sempre com Ari Santos ou com o professor Josué. Declamavam-se sonetos, liam-se pedaços de prosa, discutiam literatura. Por vezes acontecia o árabe
sentar-se com eles: ouvia trechos de crônicas, versos falando em mulher.
Como todo mundo, achava o dentista um bom rapaz, diziam-no competente profissional, sua clientela aumentava. Vendo agora o enterro mesquinho, aquela ausência de gente e de flores, aquele caixão pelado, sentia-se triste. Era afinal uma injustiça, uma coisa desairosa para a própria cidade. Onde estavam os que lhe louvavam o talento de versejador, os clientes a elogiar sua mão tão leve na extração de molares, seus colegas do Grêmio Rui Barbosa, os amigos do Clube Progresso, os parceiros de bar? Medo do coronel Jesuíno saber, das solteironas comentarem, de que a cidade os pensasse solidários com Osmundo.
Da praça da matriz, Nacib voltou. Demorou-se uns minutos no velório de Sinhazinha. O caixão ainda não estava fechado, velas e flores na sala, algumas coroas. Mulheres choravam, por Osmundo ninguém chorara.
— É preciso esperar um bocado. Dar tempo pra enterrar o outro — explicou um parente.
O dono da casa, marido de uma prima de Sinhazinha, sem esconder seu aborrecimento, andava pelo corredor. Aquilo era uma complicação inesperada em sua vida: afinal o corpo não podia sair da casa de Jesuíno, tampouco da casa do dentista, não era decente. Sua mulher era o único parente de Sinhazinha a viver na cidade, os demais habitavam Olivença, que outro jeito senão deixar que trouxessem o corpo e ali o velassem? E logo ele, amigo do coronel Jesuíno, com quem até tinha negócios."
O comovente enterro de Dona Sinhazinha. Asista um trecho
Um dos grandes destaques da telenovela, na magistral interpretação de Heloísa Mafalda. Confira o vídeo.
Um outro vídeo onde contracena com o coronel Coriolano.
![]() |
| Glória, a moça da janela, interpretada pela atriz Ana Maria Magalhães. |
A casa de glória ficava na esquina da praça e glória debruçava-se à tarde na janela, os robustos seios empinados como numa oferenda aos passantes. Uma e outra coisa escandalizavam as solteironas que vinham para a igreja, e davam lugar aos mesmos comentários, cada dia, na hora vespertina da prece:
— Falta de vergonha…
— Os homens pecam até sem querer. Só de olhar.
— Até os meninos perdem a virgindade dos olhos…
A áspera Dorotéia, toda em negro de virginal virtude, atrevia-se a murmurar em santa exaltação:
— Também o coronel Coriolano podia botar casa para a rapariga numa rua de canto. Vem e planta com ela bem na cara das melhores famílias da cidade.
Bem no nariz dos homens…
— Pertinho da igreja. Isso até ofende a Deus…
Do bar, repleto a partir das cinco da tarde, os homens alongavam os olhos para a janela de Glória do outro lado da praça. O professor Josué, de gravata borboleta azul com pintas brancas, o cabelo reluzente de brilhantina e as cavadas faces de tísico, alto e espigado (“como um triste eucalipto solitário”, definira-se ele num poema), um livro de versos na mão, atravessava a praça e tomava pela calçada de Glória. Na esquina, no fundo da praça, no centro de um pequeno jardim bem cuidado de rosas-chá e açucenas, com um jasmineiro à porta, elevava-se a casa nova do coronel Melk Tavares, objeto de profundas e agras discussões na Papelaria Modelo. Era uma casa em “estilo moderno”, a primeira a ser construída pelo arquiteto trazido por Mundinho Falcão, e as opiniões da intelectualidade local se haviam dividido, as discussões eternizavam-se. Em suas linhas claras e simples, contrastava com os sobradões pesados e as casas baixas, coloniais.
É só clicar, para conferir um trecho do vídeo
![]() | ||
| Outra atuação inesquecível de Paulo Gracindo no papel de Coronel Ramiro |
Clique para ver o trecho.
"O pai de Osmundo, abastado comerciante, com poderosas relações, na Bahia, movimentara Ilhéus durante uma semana. Dois dias depois dos enterros saltara de um navio, envergando luto fechado. Adorava aquele filho, o mais velho, cuja formatura recente fora motivo de grandes festas. Sua esposa estava inconsolável, entregue aos médicos. Ele vinha a Ilhéus disposto a todas as providências para não deixar o assassino sem castigo. De tudo isso logo se soube na cidade, a figura dramática do pai enlutado comoveu muita gente. E ocorreu um fato curioso: no enterro de Osmundo não houvera quase ninguém, mal chegavam para as alças do caixão. Uma das primeiras medidas do pai fora organizar uma visita ao túmulo do filho. Encomendara coroas, um desparrame de flores, fizera vir um pastor protestante de Itabuna, saíra convidando todos aqueles que, por um ou outro motivo, haviam mantido relações com Osmundo. Até em casa das irmãs Dos Reis foi bater, de chapéu na mão, a dor estampada nos olhos secos. Quinquina, numa noite de terrível dor de dentes, de enlouquecer, fora socorrida pelo dentista." Compare com o vídeo
Outras cenas da telenovela.
https://drive.google.com/file/d/1xCcGPiJL4j63d3p3opQZ_TmpyOxY5Tr0/view?usp=sharing
Cenas do início da telenovela
https://drive.google.com/file/d/1bEnx2uwoZKyoSuNIQnbhekQocnUB1Zxc/view?usp=sharing
![]() |
https://drive.google.com/file/d/1Z9b6W49UWxBTSRmml7WjsSF9wk7N8n01/view?usp=sharing
![]() | ||
| Todos na cidade rezam a novena. |
https://drive.google.com/file/d/1UVDiDHDJz2zG-l6QBAwzpKcRzlqdXrrs/view?usp=sharing
Manifestação no cemitério pelo assassinato do Dr Osmundo. As senhoras da sociedade apoiam e acompanham o pai do dentista em sua visita à sepultura do filho. Confira um pequeno trecho
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
Comentários














Novelas ímpares. Histórias com legitimidade ao contexto da época e local. Riqueza cultural.
ResponderExcluirO texto de Jorge Amado é extremamente rico em denúncia social.
ExcluirA condição da mulher sempre subalterna e oprimida está sempre presente em seu texto
Excluir