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Pró-Música: uma ideia que deu certo

  Se fosse possível definir o Centro Cultural para a música em um verbo , esse verbo seria realizar. Criado em dezembro de 1971 para promover um concerto mensal de música erudita a instituição sem vínculo com o poder público ou fins lucrativos promoveu em 40 anos ininterruptos mais de 3800 eventos gratuitos para milhões de espectadores. ( do livro Centro Cultural Pró-Música, 40 anos, publicado em 2014 pela UFJF e escrito pelas jornalistas Gilze Bara e Lilian Pacce, e organizado pelo vice-presidente do Pró-Música, Júlio César de Souza Santos.)   Para saber mais detalhes do livro, é só clicar Juiz de Fora,  cidade vanguardista de grande prestígio nas artes especialmente na literatura,   de grande vocação cultural, tornou-se   referência também em música erudita. O Centro Cultural por sua vez ajudou a gestar e apoiou o crescimento de diversas manifestações artísticas abrindo as portas de seu teatro, sua galeria sua escola, projetos culturais de outros grupos ...

Um trem que deixou saudades...


O Vera Cruz foi um trem de passageiros da Estrada de ferro Central do Brasil, fabricado em aço inoxidável, comprado dos Estados Unidos em  1949. Circulou durante quase quarenta anos ligando o Rio de Janeiro a Belo Horizonte, percorrendo os 639 quilômetros em 12h e 30 minutos a uma velocidade média de 60 km/h.

 

Funcionou  entre 1950 e 1990, ligando a estação Dom Pedro II (Central do Brasil), no Rio de Janeiro à de Belo Horizonte, com algumas interrupções nos anos 70, até parar por 4 anos, entre 1976 e 1980, quando retornou por mais 10 anos, deixando de circular definitivamente em março de 1990.

Revista Anuário das Senhoras


 
Sua inauguração se deu em março de 1950, e dois dias antes, a composição foi exposta à visitação pública. Os cidadãos curiosos queriam conhecer de perto o novo trem prateado, uma novidade para os mineiros acostumados com os carros de madeira e locomotivas a vapor



Enquanto isso, outro trem de luxo chamado de Santa Cruz era lançado pela Central do Brasil, na mesma época, ligando o Rio a São Paulo com as mesmas características do Vera Cruz, numa linha de traçado mais plano. Oferecia trens noturnos e diurnos

Já o Vera Cruz, exclusivamente noturno, saía da estação Dom Pedro II no Rio, vencia a Baixada Fluminense e Serra do Mar, passando por Barra do Piraí, Três Rios, e mais adiante enfrentava a serra da Mantiqueira para chegar à capital mineira. O itinerário da chamada Linha do Centro permitia passar por várias cidades que já se destacavam pelo crescimento, como Três Rios, Juiz de Fora, Barbacena, Santos Dumont, Conselheiro Lafaiete, onde parava para embarque e desembarque.


 




O  Vera Cruz, como a maioria dos trens de longa distância da Central era noturno. E diário. Saía às 20h 30 min das estações de ambas as cidades que servia. O que vinha do Rio chegava a Juiz de Fora a 1h e 40 min, onde parava 5 minutos para embarque e desembarque de passageiros, chegando em BH às 8h e 45 min . O que vinha da capital mineira passava na cidade às 3 horas da madrugada e terminava sua viagem às 8h e 45 min na Estação Dom Pedro II (Central do Brasil)

Estação de Barbacena

 
Estação de Barbacena situada a 1.135 m de altitude: o ponto mais alto da Linha do Centro. O prédio data de 1930

Jeronymo Monteiro Filho "Traçado de Estradas e Ferrovias, ed. 1955, extraído do livro Os Carros Budd no Brasil n 1 de Jose Emílio de Castro H. Buzelin, Memória do Trem, 2002

 

Foto da coleção de José Emilio De Castro H. Buzelin disponível no blog:http://centraldobrasilnasminasgerais.blogspot.com/2011/01/13-vera-cruz-e-santa-cruz-o-luxo-e-o.html

Os carros de cauda que ficavam no fim do trem apresentavam poltronas giratórias, o que proporcionava maior prazer às viagens. Ali os passageiros poderiam conversar como se estivessem em uma confortável sala de estar.

Anúncio publicado no Anuário das Senhoras de 1957

 

Para saber mais sobre os carros Budd

As automotrizes fabricadas pela Budd, também conhecidas como Litorinas, eram vagões motorizados. Rail Diesel Car, seu nome de fábrica. Eram muito comuns, conforme nos informa o blog, " A Gloriosa Central do Brasil nas Minas Gerais" e faziam o percurso de Belo Horizonte ao Rio no final dos anos 50 até 1964. Depois o trecho percorrido por elas se restringiu de Juiz de Fora ao Rio

Blog "A gloriosa Central do Brasil nas Minas Gerais"

foto da coleção de José Emílio de Castro H. Bezelin

 
Torre da Estação Dom Pedro II, da EFCB na Avenida Presidente Vargas, bem no centro do Rio de Janeiro. Os mineiros tinham como viajar em grande estilo, nos anos 50, ou pela Central no Vera Cruz, ou nos noturnos que circulavam nos antigos carros do Cruzeiro do Sul (Rio - São Paulo) ou pela Rede Mineira de Viação em carros de madeira de fabricação própria de alto luxo


Foto do livro Os carros Budd: Os trens que marcaram época de José Emílio de Castro H. Buzelin, Memória do Trem, 2002. O Vera Cruz era tracionado  comumente até a localidade de Barra do Pirái por uma locomotiva elétrica apelidada   de” Escandalosa” ou V-8, dotada de um perfil  aerodinâmico. Daí até Belo Horizonte,  o trem era puxado  pelas ALCO FA 1,  apelidadas de “biribas”

 

Locomotivas Alco FA 1 "biriba"

O jornal Estado de Minas apresentou em 12/11/2012 uma depoimento sobre o trem Vera Cruz em que o jornalista Otacílio Lage conta um pouco sobre uma viagem realizada em 1973

‘Numa noite fresca de abril’

Otacílio Lage

“Eu tinha exatamente 2 anos quando o Vera Cruz trafegou pela primeira vez. Vinte e três anos depois, eu faria a primeira viagem nele, entre Belo Horizonte e o Rio de Janeiro. Antes, já havia ido à capital fluminense, mas de ônibus, pela Viação Cometa, da qual os belo-horizontinos, então, eram reféns. Era início de abril e a noite estava fresca. Viajei em um carro de 76 poltronas, nem todas ocupadas. A composição oferecia carro-leito, com cabines individuais, mas o dinheiro era curto para tanto conforto. Tão logo embarquei, fui para o carro-restaurante tomar cerveja e jantar. Havia muitos casais, poucos solteiros, mas deu para entrosar. Por serpentear muito entre as montanhas de Minas e ter de cruzar as serras da Mantiqueira e do Mar, o Vera Cruz gastava 14 horas para fazer a viagem de 640 quilômetros – por rodovia eram, à época, 445, percorridos em sete horas. Confesso que desembarquei na Estação Dom Pedro II, no Rio, meio mareado. Mais tarde, ajudei a noticiar as sucessivas interrupções do Vera Cruz, que em 15 de março de 1990 foi aposentado de vez. Contudo, aquela viagem, em 8 de abril de 1973, ficou para sempre na minha lembrança.”

 

Os trens de alta velocidade chamados de "streamliner" dominam a cena ferroviária americana nos anos 50 como se pode observar nesse anúncio. Eram geralmente noturnos, luxuosos, verdadeiros hotéis sobre rodas e as locomotivas possuíam um formato aerodinâmico não mais a vapor. E aqui no Brasil, a Central oferecia a seus passageiros brasileiros o mesmo conforto das maiores ferrovias americanas. Na foto um anúncio que divulga as comodidades do noturno que ligava Nova Iorque a Chicago da companhia New York Central.
Anúncio da revista Railroad Magazine, anos 50.




O Cruzeiro do Sul
Antes da entrada do Vera Cruz  e Santa Cruz, O Trem Azul ou Cruzeiro do Sul, como era conhecido, representava o que de mais moderno e  confortável havia de disponível para a viagem entre as duas cidades mais importantes do país. Entrou em serviço na Central em 1929. Os carros foram fabricados nos Estados Unidos pela American Car and Foundry (ACF). Ná década de 50, O Cruzeiro do Sul perdeu seu status para o trem Santa Cruz que  a partir de então tornou-se o expoente em conforto na viagem entre o Rio e São Paulo.

 
O cronista Carlos Heitor Cony nos relata um pouco de suas lembranças do famoso trem:

Rio de Janeiro - Era mais do que um trem: era uma instituição, um símbolo de luxo, um emblema de grandeza, orgulho da Estrada de Ferro Central do Brasil em geral e, em particular, de Joaquim Pinto Montenegro, meu tio, que já andara nele, no dia em que o "Cruzeiro do Sul", vindo de São Paulo, parou em Rodeio com um problema nos freios.
Nessa histórica data, Joaquim Pinto Montenegro, que já era um rodeiense ilustre, tornou-se um ponto de referência social e ferroviário, um varão de Plutarco em termos de Serra do Mar.
No silêncio das noites de Rodeio, nunca chegando antes, nunca chegando depois, ouvíamos o "Cruzeiro do Sul" ainda ao longe, saindo do túnel 11 e vindo majestosamente, serpente de aço azulado, precisando cumprir o horário, nunca parando ali. Ninguém ia dormir sem que ele chegasse com seus vagões iluminados, deslizando sobre os trilhos como uma lagarta fosforescente, fazendo a estação rejeitada tremer de orgulho ferido, mas de vaidade também.
Na casa de Joaquim Pinto Montenegro, todos já estávamos deitados. Ele anunciava com a voz dos que sabem, dos que conhecem as leis do mundo, do sol e das estrelas, dos mares e das montanhas, e, obviamente, dos trens da Central do Brasil: "É o Cruzeiro do Sul!"
Quando passava pelas plataformas, vazias àquela hora, Rodeio inteiro tremia, tremia mansamente a casa de Joaquim Pinto Montenegro, bem embaixo da estação. Mansamente, eu tremia também.
E o "Cruzeiro do Sul" ia se distanciando, preparando-se para fazer a grande curva sobre a ponte, armazenando em sua formidável caldeira, em suas entranhas de fogo, a pressão colossal para vencer o lúgubre, o infindável túnel 12.
Assim eram os trens daquele tempo, assim era o "Cruzeiro do Sul", que não dava bola para Rodeio e o humilhava com o seu desdém, passando lentamente com seus vagões iluminados e se perdendo na noite. Mesmo assim, Rodeio sentia que vivera mais um instante de glória. Podia adormecer, agora, no silêncio deixado pelo trem azul, silêncio magnífico, silêncio que cheirava a carvão e cheiraria a saudade.

Folha de São Paulo, 17 de março de 1996 

Os dormitórios do Cruzeiro do Sul ofereciam o máximo de conforto e luxo aos usuários nas viagens de longa distância que eram geralmente feitas à noite. ( Foto: John W. Barringer III National Railroad Library Disponível em www. Fickr.com)
Foto: John W. Barringer III National Railroad Library Disponível em www. Fickr.com


(Foto de Leonardo Bloomfield, 1960).  Pátio da estação Central  em Belo Horizonte onde se destacam alguns carros pintados em azul marinho, que pertenceram ao Cruzeiro do Sul que fazia regularmente a linha Rio- São Paulo. Ele perdeu sua importância com a chegada do trem Santa Cruz. É curioso um trem, ligando duas das maiores cidades brasileiras, que funcionou por vinte anos, não ter deixado nenhum registro fotográfico. Imperdoável!!



Após sua extinção, os carros luxuosos do Cruzeiro do Sul foram utilizados em outros trens como o famoso Noturno Mineiro que ligava Belo Horizonte ao Rio. Tracionado pela locomotiva Pacific 4-6-2, o noturno passa por Juiz de Fora segundo o desenho.
Anúncio antigo do Cruzeiro do Sul, disponível no blog: https://www.afmelhoramentosdobrasil.com.br/post/o-cruzeiro-do-sul
 
Anúncio do Trem do Cruzeiro do Sul, extraído do blog da Associação Ferroviária Melhoramentos do Brasil.  O anúncio confirma as cores da pintura dos carros Pullman: azul-marinho com frisos dourados, o que lembra os carros famosos do legendário Orient- Express.


O acidente de 1976

 Numa madrugada de setembro daquele ano, sob intensa cerração, o Vera Cruz se chocou com um cargueiro, perto de Barbacena. Morreram seis pessoas, e o acidente causou grande comoção e a circulação do trem foi suspensa imediatamente até que fossem apuradas as causas do acidente. O tráfego de cargueiros transportando minério  de ferro havia se intensificado na Linha do Centro. De 1976 a 1980, O Vera Cruz parou de circular. Belo Horizonte ficou sem seu trem por quatro anos, apesar de cobranças da sociedade e da imprensa mineira, muito apegada ao trem, como todo mineiro. Em 1980, o trem volta a funcionar e circulou por mais dez anos até ser extinto em 1990. Só que agora ele deixaria de ser diário, passando a rodar apenas nos finais de semana, com saídas às sextas e retorno aos domingos. E nessa época era evidente uma tendência da RFFSA de dar prioridade ao transporrte de minérios. 


 

Foto da matéria da Revista Quatro Rodas por ocasião da volta do trem em 1980.

Folheto promocional lançado pela RFFSA por ocasião do relançamento do trem em 1980.

Foto da Revista Quatro Rodas



Foto da coleção de Edson Vander Teixeira, extráida do livro  Os Carros Budd no Brasil vol.1 de José Emílio de Castro |H. Buzeli, Memória do Trem, 2002  E o novo Vera Cruz parte da Estação Central de Belo Horizonte em 1980 para mais um década de viagens. O trem havia ficado em exposição por vários dias, aberto à visitação pública.

Matéria da Revista Veja

Revista Quatro Rodas 


 E ainda segundo o jornal O Estado de Minas " Viajar num trem, é sentir o passeio mais lento, a tranquilidade do seu característico balanço e a janela emodurando, a cada techo, cenas encantadoras. Não há como competir. Que os aviões, ônibus, barcos e carros nos desculpem, mas no quesito charme, os trens ganham de lavada. Mesmo que em Minas qualquer coisa possa  ganhar o nome de trem, os propriamente ditos trens ainda têm lugar cati vo no imaginário dos mineiros"

Dizem que a maior estação do mundo é a boca do mineiro, porque é de lá que sai mais trem. Ele está arraigado na mais genuína mineiridade.

"Mande notícias do mundo de lá, 

diz quem fica

 Me dê um abraço, venha me apertar

 tô chegando 

Coisa que gosto é poder partir 

sem ter planos 

Melhor ainda é poder voltar

 quando quero"

 
 

"Ponta de Areia ponto final

Da Bahia-Minas

estrada natural

Que ligava Minas

ao porto, ao mar

Caminho de ferro

mandaram arrancar"

 


Para saber mais: Uma crônica de Alberto Villas sobre o trem
Bibliografia:
Carros Budd no Brasil- vol 1 Os trens que marcaram época de José Emílio de Castro Horta Buzelin, Memória do Trem, 2002. 
 
 

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