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Um trem que deixou saudades...
O Vera Cruz foi um trem de passageiros da Estrada de ferro Central do Brasil, fabricado em aço inoxidável, comprado dos Estados Unidos em 1949. Circulou durante quase quarenta anos ligando o Rio de Janeiro a Belo Horizonte, percorrendo os 639 quilômetros em 12h e 30 minutos a uma velocidade média de 60 km/h.
Funcionou entre 1950 e 1990, ligando a estação Dom Pedro II (Central do Brasil), no Rio de Janeiro à de Belo Horizonte, com algumas interrupções nos anos 70, até parar por 4 anos, entre 1976 e 1980, quando retornou por mais 10 anos, deixando de circular definitivamente em março de 1990.
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| Revista Anuário das Senhoras |
Sua inauguração se deu em março de 1950, e dois dias antes, a composição foi exposta à visitação pública. Os cidadãos curiosos queriam conhecer de perto o novo trem prateado, uma novidade para os mineiros acostumados com os carros de madeira e locomotivas a vapor
Enquanto isso, outro trem de luxo chamado de Santa Cruz era lançado pela Central do Brasil, na mesma época, ligando o Rio a São Paulo com as mesmas características do Vera Cruz, numa linha de traçado mais plano. Oferecia trens noturnos e diurnos
Já o Vera Cruz, exclusivamente noturno, saía da estação Dom Pedro II no Rio, vencia a Baixada Fluminense e Serra do Mar, passando por Barra do Piraí, Três Rios, e mais adiante enfrentava a serra da Mantiqueira para chegar à capital mineira. O itinerário da chamada Linha do Centro permitia passar por várias cidades que já se destacavam pelo crescimento, como Três Rios, Juiz de Fora, Barbacena, Santos Dumont, Conselheiro Lafaiete, onde parava para embarque e desembarque.
O Vera Cruz, como a maioria dos trens de longa distância da Central era noturno. E diário. Saía às 20h 30 min das estações de ambas as cidades que servia. O que vinha do Rio chegava a Juiz de Fora a 1h e 40 min, onde parava 5 minutos para embarque e desembarque de passageiros, chegando em BH às 8h e 45 min . O que vinha da capital mineira passava na cidade às 3 horas da madrugada e terminava sua viagem às 8h e 45 min na Estação Dom Pedro II (Central do Brasil)
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| Estação de Barbacena |
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| Estação de Barbacena situada a 1.135 m de altitude: o ponto mais alto da Linha do Centro. O prédio data de 1930 |
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| Jeronymo Monteiro Filho "Traçado de Estradas e Ferrovias, ed. 1955, extraído do livro Os Carros Budd no Brasil n 1 de Jose Emílio de Castro H. Buzelin, Memória do Trem, 2002 |
| Foto da coleção de José Emilio De Castro H. Buzelin disponível no blog:http://centraldobrasilnasminasgerais.blogspot.com/2011/01/13-vera-cruz-e-santa-cruz-o-luxo-e-o.html |
Os carros de cauda que ficavam no fim do trem apresentavam poltronas giratórias, o que proporcionava maior prazer às viagens. Ali os passageiros poderiam conversar como se estivessem em uma confortável sala de estar.
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| Anúncio publicado no Anuário das Senhoras de 1957 |
Para saber mais sobre os carros Budd
As automotrizes fabricadas pela Budd, também conhecidas como Litorinas, eram vagões motorizados. Rail Diesel Car, seu nome de fábrica. Eram muito comuns, conforme nos informa o blog, " A Gloriosa Central do Brasil nas Minas Gerais" e faziam o percurso de Belo Horizonte ao Rio no final dos anos 50 até 1964. Depois o trecho percorrido por elas se restringiu de Juiz de Fora ao Rio
Blog "A gloriosa Central do Brasil nas Minas Gerais"
| foto da coleção de José Emílio de Castro H. Bezelin |
O jornal Estado de Minas apresentou em 12/11/2012 uma depoimento sobre o trem Vera Cruz em que o jornalista Otacílio Lage conta um pouco sobre uma viagem realizada em 1973
‘Numa noite fresca de abril’
Otacílio Lage
“Eu tinha exatamente 2 anos quando o Vera Cruz trafegou pela primeira vez.
Vinte e três anos depois, eu faria a primeira viagem nele, entre Belo Horizonte
e o Rio de Janeiro. Antes, já havia ido à capital fluminense, mas de ônibus,
pela Viação Cometa, da qual os belo-horizontinos, então, eram reféns. Era
início de abril e a noite estava fresca. Viajei em um carro de 76 poltronas,
nem todas ocupadas. A composição oferecia carro-leito, com cabines individuais,
mas o dinheiro era curto para tanto conforto. Tão logo embarquei, fui para o
carro-restaurante tomar cerveja e jantar. Havia muitos casais, poucos
solteiros, mas deu para entrosar. Por serpentear muito entre as montanhas de
Minas e ter de cruzar as serras da Mantiqueira e do Mar, o Vera Cruz gastava 14
horas para fazer a viagem de 640 quilômetros – por rodovia eram, à época, 445,
percorridos em sete horas. Confesso que desembarquei na Estação Dom Pedro II,
no Rio, meio mareado. Mais tarde, ajudei a noticiar as sucessivas interrupções
do Vera Cruz, que em 15 de março de 1990 foi aposentado de vez. Contudo, aquela
viagem, em 8 de abril de 1973, ficou para sempre na minha lembrança.”
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| Anúncio da revista Railroad Magazine, anos 50. |
O cronista Carlos Heitor Cony nos relata um pouco de suas lembranças do famoso trem:
Rio de Janeiro - Era mais do que um trem: era uma instituição, um
símbolo de luxo, um emblema de grandeza, orgulho da Estrada de Ferro Central do
Brasil em geral e, em particular, de Joaquim Pinto Montenegro, meu tio, que já
andara nele, no dia em que o "Cruzeiro do Sul", vindo de São Paulo,
parou em Rodeio com um problema nos freios.
Nessa histórica data, Joaquim Pinto Montenegro, que já era um rodeiense
ilustre, tornou-se um ponto de referência social e ferroviário, um varão de
Plutarco em termos de Serra do Mar.
No silêncio das noites de Rodeio, nunca chegando antes, nunca chegando depois,
ouvíamos o "Cruzeiro do Sul" ainda ao longe, saindo do túnel 11 e
vindo majestosamente, serpente de aço azulado, precisando cumprir o horário,
nunca parando ali. Ninguém ia dormir sem que ele chegasse com seus vagões
iluminados, deslizando sobre os trilhos como uma lagarta fosforescente, fazendo
a estação rejeitada tremer de orgulho ferido, mas de vaidade também.
Na casa de Joaquim Pinto Montenegro, todos já estávamos deitados. Ele anunciava
com a voz dos que sabem, dos que conhecem as leis do mundo, do sol e das
estrelas, dos mares e das montanhas, e, obviamente, dos trens da Central do
Brasil: "É o Cruzeiro do Sul!"
Quando passava pelas plataformas, vazias àquela hora, Rodeio inteiro tremia,
tremia mansamente a casa de Joaquim Pinto Montenegro, bem embaixo da estação.
Mansamente, eu tremia também.
E o "Cruzeiro do Sul" ia se distanciando, preparando-se para fazer a
grande curva sobre a ponte, armazenando em sua formidável caldeira, em suas
entranhas de fogo, a pressão colossal para vencer o lúgubre, o infindável túnel
12.
Assim eram os trens daquele tempo, assim era o "Cruzeiro do Sul", que
não dava bola para Rodeio e o humilhava com o seu desdém, passando lentamente
com seus vagões iluminados e se perdendo na noite. Mesmo assim, Rodeio sentia
que vivera mais um instante de glória. Podia adormecer, agora, no silêncio
deixado pelo trem azul, silêncio magnífico, silêncio que cheirava a carvão e
cheiraria a saudade.
Folha de São Paulo, 17 de março de 1996
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| Foto: John W. Barringer III National Railroad Library Disponível em www. Fickr.com |
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O acidente de 1976
Numa madrugada de setembro daquele ano, sob intensa cerração, o Vera Cruz se chocou com um cargueiro, perto de Barbacena. Morreram seis pessoas, e o acidente causou grande comoção e a circulação do trem foi suspensa imediatamente até que fossem apuradas as causas do acidente. O tráfego de cargueiros transportando minério de ferro havia se intensificado na Linha do Centro. De 1976 a 1980, O Vera Cruz parou de circular. Belo Horizonte ficou sem seu trem por quatro anos, apesar de cobranças da sociedade e da imprensa mineira, muito apegada ao trem, como todo mineiro. Em 1980, o trem volta a funcionar e circulou por mais dez anos até ser extinto em 1990. Só que agora ele deixaria de ser diário, passando a rodar apenas nos finais de semana, com saídas às sextas e retorno aos domingos. E nessa época era evidente uma tendência da RFFSA de dar prioridade ao transporrte de minérios.
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| Foto da matéria da Revista Quatro Rodas por ocasião da volta do trem em 1980. |
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| Folheto promocional lançado pela RFFSA por ocasião do relançamento do trem em 1980. |
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| Foto da Revista Quatro Rodas |
Matéria da Revista Veja
E ainda segundo o jornal O Estado de Minas " Viajar num trem, é sentir o passeio mais lento, a tranquilidade do seu característico balanço e a janela emodurando, a cada techo, cenas encantadoras. Não há como competir. Que os aviões, ônibus, barcos e carros nos desculpem, mas no quesito charme, os trens ganham de lavada. Mesmo que em Minas qualquer coisa possa ganhar o nome de trem, os propriamente ditos trens ainda têm lugar cati vo no imaginário dos mineiros"
Dizem que a maior estação do mundo é a boca do mineiro, porque é de lá que sai mais trem. Ele está arraigado na mais genuína mineiridade.
"Mande notícias do mundo de lá,
diz quem fica
Me dê um abraço, venha me apertar
tô chegando
Coisa que gosto é poder partir
sem ter planos
Melhor ainda é poder voltar
quando quero"
"Ponta de Areia ponto final
Da Bahia-Minas
estrada natural
Que ligava Minas
ao porto, ao mar
Caminho de ferro
mandaram arrancar"
Para saber mais: Uma crônica de Alberto Villas sobre o trem
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