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O Zé Pereira
Slap tatá...tatatá...tatatá...tatatátatatátatatátatá...tatá...tá...tatatatá...tará... tará...tátátá...pum
O repinique solou a preparação da entrada da bateria e, na resposta do surdo, as caixas de guerra soaram, chamando os tamborins, que, seguidos do reco-reco e do agogô, provocaram o ronco choroso da cuíca.
Depois de quase duas horas de concentração e muita birita, saia o bloco do Zé Pereira, ladeira abaixo do Santa Efigênia.
Marreco saiu apressado do boteco, escafedendo-se para não pagar a última cerveja. Fez ouvidos moucos para os gritos do Dori, que lhe cobrava a conta, e meteu-se entre a multidão, tropeçando no mascarado, que sequer viu o que o atropelou. Meteu-se na ala dos tamborins e tentou entrar na batida, sem atravessar a marcação, sob o olhar severo do mestre Jorgin.
A turba de palhaços, lobisomens, bailarinas, amortalhados e mascarados com meias de seda ou fronhas cortadas misturavam-se entre a multidão, formada por homens, mulheres e crianças, e até um carrinho de bebê – que se envolviam num redemoinho humano.
Só os bonecos, por causa de sua altura e de dificuldade de manobra, procuravam manter-se um pouco afastados, para evitar um tombo ou tropeção.
Mais à frente, os moleques abriam o cortejo, estrelando a escuridão, com o jato crepitante de suas bengalinhas de fogos de artifício.
Circulando por todas as alas, Zezin, com a cara pintada e um pano cobrindo a cabeça, portava a mulinha – com sua caveira de boi. O seu sorriso largo, com os dentes brilhantes, realçados pela cara pintada de carvão, espantava a criançada, e até mesmo, a alguma velhinha que circulasse descuidada pela calçada.
A folia seguia, agregando novos foliões por onde passava, ao som da bateria e dos trompetes, trombones e clarinetes que entoavam os sambas e as marchinhas, ainda cantadas pela multidão.
No meio do burburinho, Marreco, entre um plac...plac...patatac e outro plac do seu tamborim, conseguiu vislumbrar, no meio da multidão, quando um palhaço abusado se aproximou da morena Lurdinha, em sua fantasia de odalisca. Pra quê? O sangue ferveu com o ciúme, o olho vermelho mais ainda se avermelhou e até a mão crispada atravessou a percussão.
A noite estava linda, com o céu carregadinho de estrelas, enquanto uma brisa fresca soprava, naquela noite de verão. Mas nem o céu, nem a alegria dos foliões Marreco enxergava. Só via o sorriso insidioso do palhaço e o trejeito dissimulado de Lurdinha.
Já ia o bloco pelas bandas do Rosário, onde faria uma parada para molhar a goela. Mal esperou a parada e já saiu Marreco pra cima do palhaço com tapas e bofetões. Foi um arranca-rabo dos diabos, com socos e rabo de arraia – pois o palhaço não era bobo. A coisa embolou pela rua abaixo, derrubando bonecos, atropelando a baiana e amassando um tarol. Sobrou, até, para o trombone do Zé Luiz.
A polícia agiu rápido e separou os dois com golpes de cassetetes. Inquiridos os fatos, resultou na prisão de Marreco, como agressor.
Passado o susto, o bloco reorganizou-se e, após um gole e outro, a folia retomou sua marcha. Esquecida do entrevero, seguiu pela rua abaixo em direção à praça, para sua apoteótica entrada. Circulou pela praça ao som vibrante dos metais e ao fragor da bateria, enquanto as baianas rodopiavam as saias e a multidão cantava: - Ô, mulata assanhada, que passa com graça, fazendo pirraça, fingindo inocente, tirando o sossego da gente!...
Ao contornar a praça para rodear o jardim, arrastando a galera, o Zé Pereira subiu animado, com sua mulinha à frente, agitando a garotada, mas com sua bateria desfalcada de um tamborim.
Da janela da Cadeia Municipal, Marreco viu a folia passar e chorou de ódio e de ciúmes, ao ver, no meio da multidão, a odalisca Lurdinha consolando o palhaço, com o seu olho roxo e a fantasia rasgada.
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Comentários

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O que fornece a matéria prima para a crônica é o cotidiano e o que há nele de mais ordinário( não extraordinário).De mais trivial. E o encanto da crônica reside no "como" a história é contada
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