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Reforma no Parque
A Crônica, segundo Afrânio Coutinho “é um gênero literário em prosa— ao qual menos importa o assunto— em geral efêmero, do que que as qualidades de estilo, a variedade, a finura e argúcia. A graça da análise dos fatos miúdos e sem importância na apreciação ou crítica de pessoas. A crônica, é muito menos O QUE, do que O COMO o cronista se expressa.”
Antônio Cândido fala que o “cronista, diferentemente de outros autores que estão no Panteão e são ídolos — é aquele que encontramos no mercado, fazendo compras, apalpando tomates. Esse é o cronista e por isso está mais perto do leitor.”
Nicola não só alinhava os fatos relativos à reforma do Jardim Municipal, o que seria entediante — mas problematiza a chegada do modernismo que afronta as tradições do caso do cruzeiro, dividindo a população. É o novo jardim, de traçado geométrico, inspirado nas grandes cidades europeias. Nessa mesma década, o Rio de Janeiro havia passado por grandes reformas com a demolição do Morro do Castelo na gestão do prefeito Pereira Passos para a construção de uma nova avenida.
Reforma no Parque
Entro em casa correndo e solto a novidade:
— Estão derrubando as árvores do parque! Tem uma porção de gente trabalhando lá!
Mamãe enxuga as mãos no avental, chega à janela do seu quarto e confirma:
— Nossa! É verdade! Por que estão fazendo isto?
— Ouvi dizer que a Câmara vai reformar o jardim.
— Mas será preciso cortar árvores tão bonitas e antigas? Que crime!
Volto ao local do crime. Junto- me a um grupo de garotos. Observo a faina destruidora dos machados e serrotes. A derrubada atrai numerosos moradores da vizinhança. Um alemão alto, gordo e rubicundo, que usa uniforme cáqui, polainas e capacete comanda os trabalhadores. Fico sabendo que é o engenheiro Muller, contratado para executar a obra. Dizem que veio de São Paulo como especialista em urbanização e jardinagem. Cercado de auxiliares, surge no local o agente do executivo Dr. José Francisco Schettino, jovem e prestigioso político. Graças ao preço alto do café e a boa arrecadação municipal, ele vem realizando grandes obras: a adutora da excelente água do Serrote, nova rede esgoto, calçamento de paralelepípedos nas ruas principais ruas e praças, a rodovia de Ericeira e até uma escola normal com cinquenta e tantas alunas matriculadas, cuja direção foi entregue a Francisco Paixão, competente professor aposentado do colégio Pedro II do Rio.
Ao redor de Schettino, cidadãos inconformados querem explicações sobre o que está feito no parque. Alguns mais exaltados acham que o agente executivo endoidou.
— Tenho paciência! — diz Schettino. Vamos fazer um parque- jardim moderno, belíssimo, tudo de acordo com o projeto de técnico competente. Ele construiu os jardins mais bonitos de São Paulo.
Prosseguindo as obras, em poucos dias o antigo parque apresenta aspecto chocante. Até parece que o local foi bombardeado. Grandes crateras por toda a parte. Troncos serrados, galhos queimados e os buracos abertos para a remoção das raízes, novamente aterrados para servirem de base a novas alamedas.
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| Vista do Parque Agostinho Cortes após a reforma de 1928 |
Certo dia, Muller procura Schettino e exige:
— Doutor, precisamos remover o cruzeiro.
— Tirar o cruzeiro??? estranha o agente executivo.
— Sim. De acordo com o projeto, jardim moderno não tem cruzeiro. Onde está o cruzeiro haverá grande canteiro gramado, cercado de azaleias e roseiras
Missão espinhosa para o jovem político. O cruzeiro é uma das tradições da cidade fervorosamente católica. Lá está chantado ao pé do adro desde tempos imemoriais.
— Dr. Muller, não seria possível deixar o cruzeiro onde está?
— Muller non fazer nada non planejado. Muller prefere desistir e ir emborra...
Schettino procura, então, o vigário com a difícil missão de obter a concordância da Igreja para o projeto. Padre Serafini está há pouco tempo à frente da paróquia. É uma figura patriarcal: alto, magro com barba branca de profeta mas já é querido respeitado pelos paroquianos.
— Padre Serafini, não seria possível levarmos o Cruzeiro para outro lugar? Faríamos uma grande procissão e consertaríamos, pois está precisando.
O vigário não concorda. Alega que se trata de relíquia da paróquia que o povo poderá ficar revoltado com a remoção.
— Mas padre, o jardim é da municipalidade e o cruzeiro está na área pertencente ao município. Além disso, está muito velho.
A Câmara se compromete a construir outro, de cimento armado, iluminado...
A briga entre a Prefeitura e a Paróquia esquenta quando o coronel Penido, chefe jagunço, muito carola, procura tirar proveito político da situação. O povo fica dividido: os progressistas contra o cruzeiro e os tradicionalistas a favor.
Uma tempestade providencial e lá se vai um dos braços do cruzeiro, decepado por um raio e pelo vento.
O fiscal da prefeitura corre a avisar o prefeito:
— Um dos braços do cruzeiro caiu ontem com a chuva! Graças a Deus!
Padre Serafini, muito simples e crédulo, acredita que o acontecido é sinal divino e passa a concordar com o administrador, deixando o chefe dos jagunços decepcionado.
Cantando velhos hinos, lá vai a multidão de fiéis em procissão, arrastando velho madeiro pelas ruas da cidade. Todos fazem questão de pegá-lo, ajudar na remoção. O povo ajoelha- se à passagem do que restou da grande cruz, que é levada, e depois de consertada, plantada à frente do portão do cemitério de Nossa Senhora das Mercês. Inconformados, os jagunços oposicionistas vingam-se amaldiçoando o futuro da cidade. Segundo eles, Mar de Espanha a partir de então, vai dar para trás! Quem viver, verá!
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