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Pró-Música: uma ideia que deu certo

  Se fosse possível definir o Centro Cultural para a música em um verbo , esse verbo seria realizar. Criado em dezembro de 1971 para promover um concerto mensal de música erudita a instituição sem vínculo com o poder público ou fins lucrativos promoveu em 40 anos ininterruptos mais de 3800 eventos gratuitos para milhões de espectadores. ( do livro Centro Cultural Pró-Música, 40 anos, publicado em 2014 pela UFJF e escrito pelas jornalistas Gilze Bara e Lilian Pacce, e organizado pelo vice-presidente do Pró-Música, Júlio César de Souza Santos.)   Para saber mais detalhes do livro, é só clicar Juiz de Fora,  cidade vanguardista de grande prestígio nas artes especialmente na literatura,   de grande vocação cultural, tornou-se   referência também em música erudita. O Centro Cultural por sua vez ajudou a gestar e apoiou o crescimento de diversas manifestações artísticas abrindo as portas de seu teatro, sua galeria sua escola, projetos culturais de outros grupos ...

Reforma no Parque

 

A Crônica, segundo Afrânio Coutinho “é um gênero literário em prosa— ao qual menos importa o assunto— em geral efêmero, do que que as qualidades de estilo, a variedade, a finura e argúcia. A graça da análise dos fatos miúdos e sem importância na apreciação ou crítica de pessoas. A crônica, é muito menos O QUE, do que O COMO o cronista se expressa.”

 

Antônio Cândido fala que o “cronista, diferentemente de outros autores que estão no Panteão e são ídolos — é aquele que encontramos no mercado, fazendo compras, apalpando tomates. Esse é o cronista e por isso está mais perto do leitor.”

 Nicola não só alinhava os fatos relativos à reforma do Jardim Municipal, o que seria entediante — mas problematiza a chegada do modernismo que afronta as tradições do caso do cruzeiro, dividindo a população. É o novo jardim, de traçado geométrico, inspirado nas grandes cidades europeias. Nessa mesma década, o Rio de Janeiro havia passado por grandes reformas com a demolição do Morro do Castelo na gestão do prefeito Pereira Passos para a construção de uma nova avenida.

Reforma no Parque

Entro em casa correndo e solto a novidade:

— Estão derrubando as árvores do parque! Tem uma porção de gente trabalhando lá!

Mamãe enxuga as mãos no avental, chega à janela do seu quarto e confirma:

— Nossa! É  verdade! Por que estão fazendo isto?

  — Ouvi dizer que a Câmara vai reformar o jardim.

— Mas será preciso cortar árvores tão bonitas e antigas? Que crime!

 Volto ao local do crime. Junto- me a um grupo de garotos. Observo a faina destruidora dos machados e serrotes. A derrubada atrai numerosos moradores da vizinhança. Um alemão alto, gordo e rubicundo, que usa uniforme  cáqui, polainas e capacete comanda os trabalhadores. Fico sabendo que é o engenheiro Muller,  contratado para executar a obra. Dizem que veio de São Paulo como especialista em urbanização e jardinagem. Cercado de auxiliares, surge no local o agente  do executivo Dr. José Francisco  Schettino, jovem e prestigioso político. Graças ao preço alto do café e a boa arrecadação municipal,  ele vem realizando grandes obras: a adutora da excelente água do Serrote, nova rede esgoto, calçamento de paralelepípedos nas ruas principais  ruas e praças,  a  rodovia de Ericeira e até uma escola normal com cinquenta e tantas alunas matriculadas, cuja direção foi entregue a Francisco Paixão,  competente professor aposentado do colégio Pedro II do Rio.

 Ao redor de Schettino, cidadãos inconformados querem explicações sobre o que está feito no parque. Alguns mais exaltados acham que o agente executivo endoidou.

— Tenho  paciência! — diz Schettino.  Vamos fazer um parque- jardim moderno,  belíssimo,  tudo de acordo com o projeto de técnico competente. Ele construiu os jardins mais bonitos de São Paulo.

Prosseguindo as obras, em poucos dias o antigo parque apresenta aspecto chocante. Até parece que o local foi bombardeado. Grandes crateras por toda a parte. Troncos serrados,  galhos queimados e os buracos abertos para a remoção das raízes, novamente aterrados para servirem de base a novas alamedas.

 

Vista do Parque Agostinho Cortes após a reforma de 1928
O velho coreto é posto abaixo para dar lugar,  segundo dizem, a um tanque com repuxo. É  o caos. Ninguém pode prever o que sairá daquela confusão.

Certo dia,  Muller procura   Schettino e exige:

— Doutor, precisamos remover  o cruzeiro.

— Tirar o cruzeiro???  estranha  o agente executivo.

— Sim. De acordo com o projeto, jardim moderno não tem cruzeiro. Onde está o cruzeiro haverá grande canteiro gramado,  cercado de azaleias e  roseiras

 


Missão espinhosa para o jovem político. O cruzeiro é uma das tradições da cidade fervorosamente católica. Lá  está chantado ao pé do adro desde tempos imemoriais.

— Dr. Muller, não seria possível deixar o cruzeiro  onde está?

— Muller non fazer nada non planejado. Muller prefere desistir e ir emborra...

  Schettino procura, então,  o vigário com a difícil missão de obter a concordância da Igreja para o projeto. Padre  Serafini está há pouco tempo à frente da paróquia. É uma figura patriarcal:  alto, magro com barba branca de profeta mas já é querido respeitado pelos paroquianos.

— Padre Serafini, não seria possível  levarmos o Cruzeiro para outro lugar? Faríamos uma grande procissão e consertaríamos, pois está precisando.

 O vigário não concorda. Alega que se trata de relíquia da paróquia que o povo poderá ficar revoltado com a remoção.

— Mas  padre, o jardim é da municipalidade e o cruzeiro está na área pertencente ao município. Além disso, está muito velho.

A Câmara se compromete a construir outro, de cimento armado, iluminado...

A briga entre a Prefeitura e a Paróquia  esquenta quando o coronel Penido, chefe jagunço, muito carola, procura tirar proveito político da situação.  O povo  fica dividido: os progressistas contra o cruzeiro e os tradicionalistas a favor.

 Uma tempestade providencial e lá se vai um dos braços do cruzeiro, decepado  por um raio e pelo vento.

O fiscal da prefeitura corre a avisar o prefeito:

— Um dos braços do cruzeiro caiu ontem com a chuva! Graças a Deus!

Padre Serafini,  muito simples e crédulo, acredita que o acontecido é sinal divino e passa a concordar com o administrador, deixando  o chefe dos  jagunços decepcionado.

 Cantando velhos hinos, lá vai a multidão de fiéis em procissão, arrastando velho madeiro pelas ruas da cidade. Todos fazem questão de pegá-lo, ajudar na remoção. O povo ajoelha- se à passagem do que restou da grande cruz, que é levada, e depois de consertada, plantada à frente do portão do cemitério de Nossa Senhora das Mercês. Inconformados, os jagunços  oposicionistas vingam-se amaldiçoando o futuro da cidade. Segundo eles, Mar de Espanha a partir de então, vai dar para trás! Quem viver, verá!

 


 


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