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Os enterros antigos
Os enterros antigos
( trecho do livro Família sem Brasões)
Segundo Natania Nogueira...” a memorialista Áurea Nardelli nos deixou uma valiosa contribuição, permitindo adentrar ao espaço privado, à intimidade da família, e ter acesso a informações que quebram, de certa forma, o rigor e a aridez dos documentos e relatos oficiais. Nascida em Mar de Espanha, no início do século XX, a professora Áurea Nardelli relata em seus dois livros de memória passagens de sua vida. Sua experiência no magistério ocupa um espaço significativo nos dois livros, juntamente com suas impressões sobre as relações sociais e políticas que se desenvolviam ao seu redor
Não sei se é apenas em Mar de Espanha. Mas ali os hinos dobravam a Finados três vezes, quando o defunto era homem, duas vezes quando mulher e festivamente quando criança, um anjinho.
Estava anunciada a morte de um moribundo. De nossa casa, pouco depois ouvimos as batidas na madeira com a qual Nhonhô Roux fabricava o caixão. Logo se providenciavam as mortalhas. Veste igual a Nossa Senhora das Dores para as mulheres casadas. Vestido branco véu e grinalda de noiva para as moças, que se, Filhas de Maria eram vestidas de branco com faixa azul e a fita da mesma cor, com a medalha de nossa senhora ao pescoço. Os homens iam vestidos com melhor terno e de gravata. Quanto às crianças, amortalhavam- nas de virgem ou de anjo, conforme o sexo. Todos os defuntos recebiam um banho geral antes de vestidos. Dizia-se, às vezes, que a mortalha já estava pronta antes de ocorrer a morte. Horrorizada, punha-me a rezar para a sobrevivência do moribundo.
Os velórios, no meu entender de menina, eram tanto mais importantes bonitos, quanto mais havia de lamentos gritados, de “conversa” com o falecido, de copos de água de Melissa ou de flor de laranjeira distribuídos entre senhoras e moças que, muitas vezes, acabavam mesmo desmaiando. Era aí que o velório ficava tumultuado com os : acode, leva pra cama, que horror, coitada! Esse tumultuar me parecia uma festa.
Se o enterro não era no mesmo dia, a casa ficava cheia a noite toda, sucedia-se a reza do terço, já não se conversava e se isso acontecesse, era em surdina. O café era servido sem parar. Jamais o tomei. Tinha medo de que lavassem as xícaras com as “mãos de defunto” e sempre fui nojenta. Conforme o estado defunto, eu passava dias sem comer carne fazia vômitos sempre que dele me lembrava.
Mas já naquele tempo a família de Estevão Pinto mantinha atitude discreta e digna durante o velório de pessoa de sua família. Recordo-me da morte de dona Marianinha, a mãe, figura das mais queridas e respeitadas. Nós, crianças, íamos sempre a sua casa receber biscoito e outras quitandas, rever o pé de bananas que tinha sementes, o guarda-chuva que virava espada e pinto com dentes —que era Ela própria —cujo um dos sobrenomes era Pinto .
Não nos cansávamos de pedir repetição, ela não se cansava de repetir. Muito baixinha, longo vestido preto, sorriso nos lábios, para nós era linda bonequinha que também tocava piano e cantava. Gostávamos de ouvir “La donna é mobile”, talvez por ser em língua diferente da nossa.
Em seu velório não houve lamentos nem desmaios. Nós também perdemos sobrinho Duílio, filho de Nenê e Dinho, nossa irmã Lilia e o irmãozinho Vicente Nardelli Filho, depois do qual nasceria o Vicente Lívio. No velório, só houve lágrimas silenciosas.
Coisa de crianças, e nós e umas amiguinhas somos ao velório de uma pequena, cuja face havia sido pintada com papel vermelho— duas rodelas bem vivas nas maçãs do rosto cadavérico. A avó, de reputação duvidosa, tinha também a face pintada. Uma de nós começou um risinho abafado, logo seguido de um, de outro, de muitos, formando um coro exótico diante o caixãozinho.
Algumas pessoas acreditavam que o defunto não endurecesse viria, em seguida, nova morte na família. Dona Luiza Sartini, a “mãe gorda” custou muito a endurecer e sua irmã Amélia pegava -lhe os braços, suplicando:— Endurece, mana, endurece mana. Não sei se endureceu mas o certo é que Dona Amélia lhe sobreviveu por muitos anos.
Terminado o velório, saía o enterro a pé, carregado por quatro homens, se era adulto e se anjinho, as meninas o carregavam. Hilda jamais fez isto, tinha medo. Eu não perdia um, gostava de ajudar. Edith e Romilda também fugiam dessa triste tarefa. Um dia a Ivone, prima de Romilda ameaçou-a de não encontrar ninguém que lhe carregasse o caixão. E Romilda, amedrontada, passou a colaborar.
Quem retirava o caixão da igreja pegava-o até à porta do cemitério e o conduzia até a cova. Havia suspestição de que se assim não fizessem, os quatro condutores do caixão morreriam proximamente.
Muitas outras petições havia, todas com a mesma ameaça de morte: olhar o enterro virar a esquina, deixar a criança ou gente grande dormindo, quando o inteiro passava em frente à casa... a Mamãe não as temia... minha madrinha avó no entanto, acreditava nelas e tomava as precauções para que não nos atingissem. Excluindo-se os pobres, pobres mesmo, os enterros se faziam acompanhar pelas marchas fúnebres tocadas pela Banda ou por músicas alegres conforme o morto era adulto ou anjinho. Tocava a banda, um choro contagiante levava os lenços aos olhos e o cortejo mais parecia um bando de asas . A banda ia no final das duas filas muito bem organizadas, os meninos na frente, seguidos de homens, vinham depois as meninas e as mulheres todas com um ramos de flores nas mãos. Andavam lentamente, o caixão no meio das filas.
No enterro de Ziloca, tuberculosa, bem em frente à nossa casa o fundo caixão se desprendeu, ela caiu na rua poeirenta, afugentando o povo que corria com medo do contágio. Abrimos uma janela de nossa casa que, como todas as outras se mantinham fechadas à passagem de um enterro, acompanhada das portas cerradas das casas comerciais. Não me esqueço daquela visão lúgubre, o corpo estirado na poeira, a vinda apressada de Nhonhô Roux para repregar o caixão. Ninguém se aproximou enquanto o médico doutor Coryntho e Alfredinho barbeiro não o repuseram em seu não último leito. Só então voltaram e o enterro continuou.
A morte de uma pessoa da família e colocava esta em plena reclusão, todas janelas da frente fechadas até passar a missa de sétimo dia, ninguém saía à rua, os homens não se barbeavam. Confeccionava-se o luto, vestido de preto de algodão, muito raramente de seda, mangas compridas, decote discreto, enfeitado com grega de crepe opaco. Meia e sapatos pretos. Também os homens se vestiam e se calçavam completamente de preto.
Por esposo, , esposa pai ou mãe o luto durava um interminável ano, seis meses de preto— luto fechado— seis meses de luto aliviado, só quando entrava a cor cinza, a saia com blusa branca ou estampada de preto e branco ou preto e cinza.
Para os avós e irmãos, o luto era de seis meses, três fechados e três aliviado, Para os tios, o luto era de três meses, mês e meio fechado e mês e meio aliviado. Crianças de sete até treze, catorze anos, usavam apenas uma tarja preta no braço esquerdo. No período do luto, aboliam-se os bailes, passeios em parques ou jardins públicos. Só as cerimônias religiosas poderiam ser assistidas, assim mesmo somente depois da missa de sétimo dia. Pianos permaneciam fechados, casamentos se adiavam.
Com tais hábitos, numa época em que as mulheres não tinham outra ocupação além das atividades de donas de casa, a morte em uma família transmitia-lhe grande depressão, enquanto durava o luto.
Algumas mortes em Mar de Espanha causaram-me impacto. A primeira foi a de Duilinho, filho de Nenê e Dinho, criança de dez meses, até então sadio. Uma gripe, transformado em catarro sufocante, levou-o de nós. Sofreu muito. Não havia os recursos médicos e remédios de hoje. Nenê nunca chorou e impressionava pela fisionomia dolorosa, os olhos secos. Outra morte foi de Antônio Gouveia. Adolescente como Hilda tinha por ela uma paixão não correspondida, o que não impedia que recebesse dele os alfinetes com pombinha na ponta. A coleção já estava grande. Eu brigava com Hilda por isso, que achava indigno. Certo dia, numa viagem de caminhão foi esmagado num barranco, chegando à Santa Casa sem esperança de sobreviver. Dentro de meu romantismo, insisti com Hilda para que o fosse ver mas ela não foi: — Não gosto de ver ninguém morrendo, jamais fui sua namorada.
Naquele momento, achei Hilda a pior criatura do mundo. Também a morte se dona Mariquinhas do Nenê Lucas me impressionou. Teria gêmeos que não chegaram a nascer, morrendo com ela. Toda a cidade vivia o seu drama. Criança gosta de velório e lá fui eu, defrontando com a defunta, cuja barriga, guardando os gêmeos, estava descomunal. A seus pés, o netinho que morrera naquele mesmo dia. Voltei rápido para casa.
Latife, minha colega de terceiro ano primário, morreu sem que o doutor Coryntho chegasse a um diagnóstico. A febre alta resistia aos medicamentos, numa época em que os antibióticos não existiam. Acontecendo morrer no banho, após tomar Cafiaspirina, criou-se a lenda de que o banho após esse medicamento era mortal. Confessa haver acreditado nisso durante muitos anos. Fora ela uma criança muito levada e desorganizada.
— Logo agora que estava comportado e ordeira, suas gavetas de roupa tão bem arrumadinhas... era voz geral. Sua morte coincidiu com a crise pré-pubertária que sofri. Dormia pouco, acordava sobressaltada, corria ao quarto de meus pais, falava de medo, medo não definido. Ouvia sempre uma mãe afirmar:— Você está com medo da Latife. Meus protestos de nada adiantavam. Corria, então, para os pés da cama de Lilia só assim me acalmava!
O enterro do Djalma achei lindo! Ele fazia o Tiro de Guerra, foi coberto com a Bandeira Nacional, a Banda tocando o “ Nós somos da Pátria Amada...”
Madrinha e padrinho do Caxambu criaram filhinha, cuja mãe era “ mulher da vida” Aos dezesseis anos, já noiva ajudava madrinha a cortar peças para seu enxoval quando caiu morta sem um gemido. No caixão parecia dormir vestida de noiva. Lilia cismou que Filhinha não morrera, ficou muito nervosa, nem um espelho colocado junto à boca e ao nariz da morta e permanecendo límpido, a tranquilizaram. Foi preciso vir de novo doutor Coryntho constatar que a jovem estava morta de fato.
Eu gostava de Filhinha. Brincava muito com ela, levava-a a passear comigo, tinha pena por sua origem jamais esquecida.
Muito chorado foi a morte de dona Adelaide Manso cuja bondade não distinguia pretos ou brancos, pobres ou ricos, trabalhadores ou vadios. Depois de dez filhos, o médico constatou não poder ela engravidar novamente. No entanto, um pouco depois engravidou. Surgindo complicações, a cidade com poucos recursos no sétimo mês foi transportada para o Rio de Janeiro, na penosa viagem de trem. Tantos anos se foram e vejo nitidamente a passagem do trole puxado lentamente por cavalos, ela recostada em travesseiros. Mamãe chorava e chorava com ela toda a população. Hospitalizada no Rio, ali nasceu, prematuramente a filhinha, cuja a vida lhe trouxe a morte. Dias depois, ao subir a Serra de Petrópolis para atingir Mar de Espanha, a pequenina também morre.
Extraído lo livro de memórias "Uma família sem brasões" Áurea Nardelli vol.1 2ª edição 1984, Esdeva Empresa Gráfica Ltda Juiz de Fora
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Comentários

O que chama mais atenção nesse texto são as superstições que existiam muito em outras épocas. A gente tinha muito medo.
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