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Pró-Música: uma ideia que deu certo

  Se fosse possível definir o Centro Cultural para a música em um verbo , esse verbo seria realizar. Criado em dezembro de 1971 para promover um concerto mensal de música erudita a instituição sem vínculo com o poder público ou fins lucrativos promoveu em 40 anos ininterruptos mais de 3800 eventos gratuitos para milhões de espectadores. ( do livro Centro Cultural Pró-Música, 40 anos, publicado em 2014 pela UFJF e escrito pelas jornalistas Gilze Bara e Lilian Pacce, e organizado pelo vice-presidente do Pró-Música, Júlio César de Souza Santos.)   Para saber mais detalhes do livro, é só clicar Juiz de Fora,  cidade vanguardista de grande prestígio nas artes especialmente na literatura,   de grande vocação cultural, tornou-se   referência também em música erudita. O Centro Cultural por sua vez ajudou a gestar e apoiou o crescimento de diversas manifestações artísticas abrindo as portas de seu teatro, sua galeria sua escola, projetos culturais de outros grupos ...

O Come-quieto

 

 


 O Come -quieto 

 Manoel Franco

             Naquele início dos anos 60 a vida seguia mansa, sem pressa. A venda do meu pai, quase no fim da Rua das Flores, era um entre os muitos locais de comércio de secos e molhados da cidade. Mas, havia dias que era mais de molhados, como nos sábados, quando os trabalhadores da roça se juntavam aos fregueses da rua para bebericar, pinga vermute e cerveja no balcão.

           A venda, uma antiga sala com duas portas de bandas duplas, tinha um balcão inteiriço que dividia o ambiente. Sobre o balcão tinha uma cristaleira com pastéis, salgadinhos e doces. Ao lado dela, tinha uma grande roda de queijo parmesão, seguida de uma balança de pratos duplos e seus pesos.

           As bandas da porta fechavam-se para dentro: as do lado encostando-se à parede, e as do centro sobrepondo-se uma sobre a outra, formando um pequeno vão no meio.

           Os fregueses de parada sentavam-se sobre engradados de bebidas para prosear e fazer hora.

           Entre causos, apostas de purrinha, alguns toques de sanfona e muita conversa fiada havia um burburinho geral, mas, de repente, em uma breve pausa, ouviu-se um estranho roc roc.

           De início, ninguém ligou muito, mas como voltou a ser ouvido em oura pausa, começou a despertar certa curiosidade.

          Alguns aventaram ter um rato no local, e com isso começou a procura do bicho. Olhou-se nos cantos do balcão, nos buracos da parede e nada de se achar o rato, até que alguém resolveu arredar as portas sobrepostas para procurar.

        Para espanto geral, lá estava um menino negro, muito magrinho, com as duas mãos segurando uma rosca de sal, a qual roía avidamente. Era José Antônio, um dos muitos afilhados de meu pai, que comia a rosca escondido para não ter que dividir com os outros meninos.

       Meu pai havia lhe dado a rosca mais cedo, como fazia rotineiramente com os meninos da rua, que recebiam doces, balas e roscas de presente. Eram os fregueses de grátis como chamava.

         A algazarra geral, renomeou o menino com o nome de Come-Quieto.

        Come-Quieto tinha um jeito muito peculiar de ser: caminhava meio curvado, com os pés voltados para fora. Fizesse sol ou chuva, estava sempre sorrindo, com um olhar de soslaio, de baixo para cima. Era um garoto quieto, mas personagem de muitas peripécias pitorescas. Uma delas ocorreu durante uma festa de Santo Antônio.

        Meu pai era um dos organizadores da festa do santo, pelo qual tinha grande devoção. A festa, realizada no largo ao redor da Igreja de Santo Antônio, durava vários dias, com seu apogeu no dia 13 de junho. Os moradores da Rua das Flores e adjacências organizavam barraquinhas de pescaria de prêmios e vendas de doces, salgados, caldos e quentões. Todo o largo e o pátio da igreja eram iluminados com muitas lâmpadas dependuradas e bandeirinhas de papel de seda, de diversas cores. Atrás da igreja era realizada uma grande quadrilha com damas vestidas de chita e fitas no cabelo, e cavalheiros de calça remendada e chapéu de palha. O sanfoneiro tocava a noite toda, às vezes, acompanhado de um pandeiro e um cavaquinho.

         No meio do festejo, meu pai viu Come-Quieto lá em baixo, receoso de chegar às barraquinhas e, curioso, foi falar com seu afilhado. Ao chegar perto, viu José Antônio com um paletó que lhe havia presenteado um mês antes, porém estranhou o fato do paletó estar do lado do avesso.

        Questionou ao menino se ele tinha notado que o paletó estava vestido errado, e não conseguiu conter o riso ao ouvir Come-Quieto responder:

   - Eu sei padin, mas do outro lado tá sujo!

      Come- Quieto usara o paletó o mês inteiro, direto, e como o sujara, invés de lavá-lo, virou-o do avesso para ir à festa.

 

 

          


Comentários

  1. Come quieto era uma piada. Ficou um tempo internado no hospital onde ao receber alta foi contratada para trabalho. Ali sossegou arrumou uma namorada e se casou.

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