Postagens em destaque
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
Mar de Espanha de minha infância
Daniel Rocha
Publicado no grupo do Facebook Nandu Rangel·Terça-feira, 22 de junho de 2021·
Teria sido bem mais monótona minha infância se meu pai— o industrial Carlos da Silva Rocha— não tivesse adquirido, em 1914, a chamada “Fazenda da Caieira”, em Mar de Espanha.
Fazenda da Caieira, por existir ali um grande forno de pedra, para fabrico de cal (pedra queimada e pulverizada) o que levou meu pai a localizar a primeira jazida de mármore explorada em nosso país. Nascido no Rio em 1908, num sobrado da Rua da Constituição (que liga Praça Tiradentes ao Campo de Sant’ana) tinha eu, então seis anos de idade e o meu mundo se limitava ao grande armazém do andar térreo, onde funcionava a Marmoraria Rocha.
Um confuso aglomerado de máquinas, pesados blocos de mármore importados da Itália e de Portugal, bancadas onde trabalhavam grande número de operários. Fora dali, nos fins de semana (sempre aos Domingos) a visita dos avós maternos, na Ladeira Tavares Bastos ( no Catete) em cuja última casa( no alto do morro) de onde se tinha uma linda vista da cidade, residia o tio Veríssimo. Ele e meu avô eram sócios numa fundição de bronze, na rua Bento Lisboa. Vez por outra, o alvoroço do anúncio de um piquenique, ao qual concorria a família inteira, amigos e empregados de mais confiança(era costume integrarem a vida da família)
Na Penha, durante o período de festas da padroeira, lembro-me dos caminhões enfeitados, com romeiros de ambos os sexos, levando colares de roscas, cobertas de açúcar. Grupos com grandes cestos de duas tampas com pastéis, carne assada, frango, ovos cozidos, sanduíches etc. Também no Saco de São Francisco, e em Paquetá com o atrativo da travessia da Guanabara nas grandes barcas de dois andares. Tios, primos, cunhados, amigos, todos de colarinho, paletó, chapéu de palha e a calça de flanela, como “exigia o figurino”. Foi , assim, alvoraçante, a notícia de que tínhamos agora uma fazenda de mais de 60 alqueires, com um casarão de 14 quartos, bois, cavalos, carneiros e cabras. Éramos cinco filhos. Três rapazes e duas moças.. Eu, o mais novo dos três.
Chegado o dia, estávamos na Estação da Leopoldina, às 6 horas da manhã, instalados no trem que partia para Minas Gerais. Ao chegar à Raiz da Serra, as locomotivas de cremalheira dividiam a composição para leva-las serra acima. O cheiro de mato chegava até nós e o apelo dos garotos à beira da estrada nos chegava aos ouvidos em ritmo monótono: Jornal! Jornal! Jornal!
No alto, a composição se recompunha, antes de chegarmos a Petrópolis para onde o mundo elegante do Rio fugia durante do verão. A plataforma cheia de gente e de vendedores de frutas, de doces, de queijos e de flores. Tudo era radioso e alegre. Duas horas depois, a pressa em saltar e descarregar as malas na pequena Estação de São Pedro do Pequeri. Ali, tínhamos de aguardar quase três horas pela partida do trem do ramal de Mar de Espanha. Descansávamos num curioso “Hotel Familiar” ( e qual não era?) que tinha na sua sala de entrada uma grande parede coberta de retratos emoldurados das mais importantes personalidades internacionais. Desde Napoleão ao nosso Pedro II, Garibaldi, Rainha Vitória, Vitório Emanuele. Francisco José, Abrahão Lincoln, Simon Bolívar e muitos outros
Duas estações ainda menores: Uricana e Estevão Pinto, e afinal estávamos em Mar de Espanha.. A estação cheia de gente, testemunhando o acontecimento do dia: a chegado do trem.
Já nos esperava o administrador, João Firmino (um antigo operário, que para lá se mudara com a família, a pedido de meu pai). Tínhamos de completar o percurso em carro de boi. No assoalho do carro se estendiam colchões para “conforto das mulheres e crianças”, Ríamos de tudo. As dificuldades a enfrentar, mais nos divertiam que contrariavam. Nossos olhos iam curiosos de um lado para o outro. Meu pai montava, satisfeito uma mula adquirida especialmente, de boa índole e boa e melhor andadura e parecia a meus olhos, um grão senhor do alto daquele animal. À frente do nosso carro “ acolchoado” ia o “candeeiro”, um menino com um pequena vara no ombro, insinuando aos bois o caminho a seguir. Um preto ao lado, chocalhava a sua vara de ferrão, mantendo o carro em movimento. A música dolente do atrito do eixo de madeira no encaixe das rodas soava como uma saudação de boas-vindas, As casas iam desfilando lentamente. Chegávamos à praça encimada pela Igreja Matriz e entrávamos na rua principal. Ali estavam as residências mais importantes. A casa do Dr João Maria de Miranda Manso, do Nunziatto Schettino, do Vicente Nardelli, dos Penidos. A farmácia do velho Feliciano ( sogro do Dr. Manso) e enfim a estrada ladeando pequenas chácaras. O bambuzal dos Alvarenga, com os bois enterrando as patas até os joelhos num lamaçal fronteiro. Um morro íngreme, os vigorosos apelos do carreiro incitando os bois, a descida cautelosa até uma larga planície. Ao longe uma cerca de arame farpado. Um grito: a fazenda começa ali. O candeeiro abre uma larga porteira, como se estivesse dando as boas-vindas aos recém-chegados. Tomamos de assalto o enorme casario, ponto final da alegre caravana. Andávamos de um lado para o outro, enquanto os empregados desciam a bagagem. Toda terra contida em nosso olhar pertencia à fazenda
A noite chegara cedo. Não havia luz elétrica. Só lampião de querosene dissiparia agora a escuridão reinante. Em janeiro as cigarras anunciavam ruidosamente o verão. Vagalumes cruzavam, numerosos, a escuridão da noite. O dia começara muito cedo para nós. O sono nos cobrava as horas que lhe havíamos roubado naquela manhã. Foi confortador esticar o corpo naquele colchão de palha de milho e encostar a cabeça no travesseiro de palha do brejo. Um aroma de terra. Um cheiro de vida.
O sol se levantou pouco antes de nós. Lá fora, ouvíamos a presença de galos, patos, gansos em alvoroço. Aberta a janela era o curral. As vacas tranquilas, umas com seus bezerros amarrados pelo pescoço à sua pata traseira enquanto seu espumante enchia um latão, ao ritmo vigoroso do ordenhador.
O Silvano, da minha idade (filho do administrador) me serviu de guia na exploração daquele pequeno mundo que nos cercava. A horta (tão grata à culinária portuguesa), o pomar com limoeiros, laranjeiras, goiabeiras, mamoeiros, carregados de frutos, uns verdes, outros maduros, à espera de que nossas mãos os alcançassem. O chiqueiro, os cevados , mal podendo se por de pé, de tão gordos: as porcas deitadas, oferecendo pacientemente suas tetas à voracidade de tantos leitõezinhos.
O córrego. A roda d’água girando lentamente, fazendo a mó triturar o milho, que caía um a um. Ao lado, a moenda de cana, junto. Os grandes tachos de cobre para a produção do açúcar mascavo. O alambique para fabricar a aguardente. Ao alcance de nossos olhos. A plantação de milho e de cana-de-açúcar.
A natureza impunha suas normas, tudo despertava com o nascer do dia, tudo começava mais cedo para acabar ao por do sol. Depois era a noite, o reino das sombras, do mistério, dos morcegos, dos medos e dos perigos invisíveis.
O almoço era às 9 horas e o jantar às 4 da tarde.
A comida com o mesmo nome tinha um sabor diferente. O feijão com torresmo, a couve direta da horta, galinha ao molho pardo, o lombo de porco assado, a abóbora-moranga, o angu de fubá, o palmito de indaiá, os ovos estrelados de gema dourada, o inhame, o melado, a rapadura, o queijo fresco, a goiabada de tacho, a broa de milho.
Meu pai compraria logo uma cavalo para mim: Pequira ( no nome e no tamanho) manso e tranquilo como um carneiro, eu passei a acompanhá-lo. Assim levei bem mais longe a minha curiosidade, Galguei com ele os morros que circundavam a fazenda, Descemos ao Córrego de Areia. Visitamos a fazenda do Quincas da Inácia, a mãe de muitos filhos e mulher de muito tino que sabia valorizar como ninguém o que ali se produzia. Desse Quincas compraria meu pai um lendário boi “Mimoso” grande forte e muito manso que, durante anos, prestou serviço no transporte dos pesados blocos de mármore para a estação ferroviária. Ao morrer, anos depois, o “Mimoso” foi solenemente enterrado em cova especialmente aberta para ele. Não serviu de pasto para os urubus.
Visitamos a fazenda dos Tostes, uma das melhores da região, Fomos ao outro lado, o da Ribeira, à procura de gado, de queijos, de mangas, de cavalos. Na cidade alargávamos nossas amizades, à medida que a extração do mármore crescia, obrigando meu pai a levar para lá quase uma centena de artesãos: canteiros, encunhadores, cavouqueiros, ferreiros, debastadores e os serventes recrutados no local. Muitos desses operários constituíram família ali, dando origem a novos integrantes da sociedade local.
Pequenos blocos de mármore serviam para fazer pontes e bueiros no caminho da fazenda, Meu pai rasgara o morro do Alvarenga para facilitar o trânsito. As aparas de mármore que juncavam o chão da pedreira foram levadas por ele para dar aos caminhos mais firmeza e segurança.
Em 1922 eu fui estudar no Ginásio Leopoldinense, como aluno interno. Nas férias da Semana Santa e nas de junho eu vinha de trem até Sapucaia ( Cidade das Mangueiras) e ali um cavalo me esperava para me levar até a fazenda. No fim do ano era a família toda a povoar o casarão. Já éramos conhecidos na cidades. Todas as portas se nos abriam. Já não chegávamos do Rio — sem jantar antes de tomarmos o rumo da Fazenda— na casa do Dr. Manso, onde Dona Adelaide se desvelava em atenções, ou no casa dos Schettino, de mesa farte e bem provida, ou ainda na casa dos Nardelli. O Vicente Nardelli tinha um armazém de várias portas que era a um só tempo padaria ( com forno e tudo mais), armazém de cereais, casa de tecidos, de sapatos, de chapéus. Ali se podia comprar azeitonas, vinhos estrangeiros, sardinhas portuguesas,, conservas de toda a espécie, cerveja, aguardente em garrafa ou em pequenas doses no balcão. Foi um autêntico precursor de nossos supermercados, Junte-se ainda a tudo isso que ele era também Agente do Banco Hipotecário e Agrícola.
Terra de famílias numerosas( 12, 13 e 14 filhos), de moças bonitas e rapazes sadios. Nenhum de nós ficou imune a tais encantos. O meu irmão mais velho, o José levou meu pai a pedir a mão de uma filha do Dr. Manso, em casamento. O outro, Alberto, namorou a filha do fazendeiro Tostes. Eu ainda, garoto de 14 anos, suspirei em segredo por uma outra filha do Dr. Manso, mais ou menos de minha idade.
Quando o mármore estrangeiro, no fim da década de 20 invadiu o nosso desprotegido e indefeso mercado, tornando insustentável manter a exploração da jazida de Mar de Espanha, foi triste despedida.
Mas o Mar de Espanha que eu conheci tinha jornal, tinha teatro, tinha um animado Carnaval com carros alegóricos. Tinha uma mocidade alegre e divertida.
Ao partir deixei ali muitos sonhos, ilusões, esperanças. Trouxe comigo, porém, a lembrança de um tempo feliz em que montava a cavalo, e me sentava em cima dos grandes blocos de mármore a caminho da estação, A lembrança de uma liberdade cheia de promessas e encantamento.
Daniel Rocha é escritor, tradutor, advogado especializado em direito autoral. Diretor da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais e representante do Brasil na Confederação Internacional de Autores e Compositores( CISAC) com sede em Paris.
Publicado no Diário da Tarde, Belo Horizonte 20 de fevereiro de 1984
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos





Comentários
Postar um comentário
Sua opinião é muito importante para nós. Se comentar sem o email, identifique-se, POR FAVOR !