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Pró-Música: uma ideia que deu certo

  Se fosse possível definir o Centro Cultural para a música em um verbo , esse verbo seria realizar. Criado em dezembro de 1971 para promover um concerto mensal de música erudita a instituição sem vínculo com o poder público ou fins lucrativos promoveu em 40 anos ininterruptos mais de 3800 eventos gratuitos para milhões de espectadores. ( do livro Centro Cultural Pró-Música, 40 anos, publicado em 2014 pela UFJF e escrito pelas jornalistas Gilze Bara e Lilian Pacce, e organizado pelo vice-presidente do Pró-Música, Júlio César de Souza Santos.)   Para saber mais detalhes do livro, é só clicar Juiz de Fora,  cidade vanguardista de grande prestígio nas artes especialmente na literatura,   de grande vocação cultural, tornou-se   referência também em música erudita. O Centro Cultural por sua vez ajudou a gestar e apoiou o crescimento de diversas manifestações artísticas abrindo as portas de seu teatro, sua galeria sua escola, projetos culturais de outros grupos ...

Janelas para o mar

 

 


 

Mais um relato de Memórias extraído do livro “Histórias que o povo gosta de ouvir” da Prof. Zâine Baptista Pinto no qual a escritora Magda Trece nos conta um pouco de suas lembranças.

Pedagoga, pós-graduada em Metodologia do Ensino Superior, Magda trabalha no Colégio dos Santos Anjos em Juiz de Fora, com projetos literários e contação de histórias.

É autora de vários livros de literatura infantil: Vovó Filó, a Caçadora de Maravilhas, A Esperança de Vovó Filó, Doli não é Mole, “O jogo das profissões”, “O livro amarelo”,”Nasce uma estrela”, entre outros.

JANELAS PARA O MAR

Magda Trece Ribeiro

Da janela da casa de minha mãe, olho para a Igrejinha do Morro de Santa Efigênia e vejo o sol pincelar as paredes da construção com um tipo de cor que os homens ainda não conseguiram criar: a cor do entardecer. A paisagem ganhou nuances tão lindas que a impressão que tive é que o Criador estava naquele exato momento com o pincel na mão brincando de fazer “arte”. E a rapidez e intensidade daquele momento disparou um gatilho em minha mente, abrindo janelas, num verdadeiro “flashback”...

“ Rataplan do arrebol,

Escoteiros vede a luz!

Rataplan olhai o sol

Do Brasil que nos conduz...”

Me vejo na fila, com o uniforme de saia pregueada, meia branca e o grande laço na cabeça, segurando o cabelo que já se manifestava rebelde.

Ao fundo, a voz de D. Zélia não deixava margem a brincadeiras. Respeito e disciplina eram fundamentais nesse momento, apesar dos nossos corações estarem ansiosos pelo recreio e pelas conversas secretas nos degraus pomposos daquele pátio lindo e aconchegante do Grupo Escolar Estevão Pinto.

A vitalidade das crianças contrastava com o silêncio do hospital e me lembrei da primeira vez que entrei lá. Era um labirinto enorme e me senti pequenina diante daquelas camas altas e dos corredores compridos. Como as coisas são grandes e assustadoras quando as desconhecemos... até hoje tenho essa sensação ao lidar com fatos que não domino..

Descendo a rua do hospital, parei no Bar do Alberto para comer a melhor cocada da minha vida. Fecho os olhos e sinto o gosto dela dissolvendo na minha boca e recordo com carinho da imagem do seu “Wazuca” entrando em casa, com várias delas enroladas num papel de pão; isso sem falar naquele sorvete de ameixa que procuro em todas as sorveterias por onde passo e nunca encontrei nada igual...

Ao sair de lá impossível não reparar na maravilhosa escada que dá acesso à nossa querida Matriz, cenário de tantas coroações onde “anjos meninos” enfeitavam o altar com a expressão da ingenuidade própria de “almas limpas”.

Do pátio da Matriz é possível ver a movimentação do jardim. Ahhhhhhhhhh... o jardim... lugar mágico e sedutor.

A janela que se abre em minha mente traz o Coreto e produz um frio em minha espinha... Brincávamos de quatro cantos, pulando de uma pilastra a outra, sem nos preocuparmos com os quadrados de vidro ao pé de cada pilastra, no chão do Coreto. De repente um estrondo, um grito e o terror de uma perna rasgada pelas pontas do vidro que se partiu com impacto os nossos pulos. Foram muitas noites sem dormir com a lembrança daquela cena.

Mas o jardim que conquista nossos corações, é aquele que respeita o tempo de uma preguiça e se encanta com o seu “caminhar lento”... é aquele que se desenha em formato de meia lua para esconder os primeiros beijos... é aquele onde as árvores servem de arquivos vivos para a posteridade, deixando registrado nos seus caules as iniciais dos iniciantes na arte do amor.

Ao chegar na praça, um sonho antigo e secreto: o banco dos motoristas de táxi. Assentar naquele banco era se transformar em rei, e deste “trono” assistir a tudo e a todos, do ponto mais nobre da cidade.

Somente muitos anos depois tive a honra de me tornar rainha por alguns minutos, pois num momento excepcional, me atrevi a viver esse sonho. Sensação inigualável!

“Colombina, onde vai você? Eu vou dançar o iê iê iê. A gangue só me chama de palhaço. Palhaço! Palhaço!...” Da praça, abri a “janela” do Clube Recreativo, que assim como o Rex, foram palcos de carnavais recheados a serpentinas, confetes e músicas inesquecíveis. Ritual indígena: dançávamos em círculo pelo salão, desfilando nossas fantasias e nossos melhores sorrisos.

O assoalho do Clube Recreativo era o teto da farmácia do Dudé, local que invadi correndo feito louca, que dava acesso à casa da Neila, amiga inseparável de infância, para me abrigar do cajado do Zé Cipó. Isso me rendeu uma cicatriz em cima do olho quando o trinco da porta entrou na minha carne e na minha história.

Caminhando um pouco mais, parei em frente ao Casarão da rua Estêvão Pinto, nº 100, onde passei os melhores momentos de minha infância. Eu me sentia a própria Julieta — do alto do balcão — ao abrir aquelas portas-janelas desproporcionalmente imensas para qualquer criança. A varanda que existia nos fundos do casarão era disputada por nós e D. Georgina, que lavava as roupas da casa e as estendia por todo o quintal, em varais de arame suspensos por bambus, o que muito atrapalhava nossas brincadeiras de casinha feitas no galinheiro e no chiqueiro, extremamente limpos por minha mãe. De brinde, ainda havia um barranco onde fazíamos estradas que eram enfeitadas com carrinhos feitos de lata de sardinha e de boizinhos feitos de batata com os pés de palito. Eu acho que momentos como esse, deveriam estar inseridos nos “Códigos de Direitos” de todas as crianças do mundo.

Com o passar do tempo, o uniforme do Grupo foi substituído pelo do Ginásio e, nesse “passeio”, me vem à mente a figura inesquecível da Irmã Jesualda; mulher baixa, firme e de pele morena, que contrastava com o hábito claro. Gratidão é o sentimento que me vem à mente...

Saindo do Ginásio caímos literalmente no frequentadíssimo “Bijuca” que vendia doces de abóbora em forma de coração, suspiros cor de rosa e o famoso picolé minissaia...

As “janelas” começaram a abrir de forma mais lenta, como se as lembranças começassem a ficar mais distantes...e a última a se abrir vai até o Rosário e me traz o querido Zuca que me ensinou a arte de interpretar; e que fique registrado que ele foi um dos maiores atores com quem tive a honra de contracenar. A vida o levou para um outro tipo de “palco”, onde várias pessoas o procuram em busca de esperança de dias melhores...

O vento frio tocou meu rosto como se dissesse que já era hora de despertar... a Igrejinha já não tinha mais a cor do entardecer e eu fechei cuidadosamente a janela da casa de minha mãe e fui para a sala onde minha família estava reunida, e eles nem perceberam que eu sorri, fechei os olhos e agradeci a Deus a benção de ter nascido naquela família e na cidade de Mar de Espanha..

 

 

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