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Pró-Música: uma ideia que deu certo

  Se fosse possível definir o Centro Cultural para a música em um verbo , esse verbo seria realizar. Criado em dezembro de 1971 para promover um concerto mensal de música erudita a instituição sem vínculo com o poder público ou fins lucrativos promoveu em 40 anos ininterruptos mais de 3800 eventos gratuitos para milhões de espectadores. ( do livro Centro Cultural Pró-Música, 40 anos, publicado em 2014 pela UFJF e escrito pelas jornalistas Gilze Bara e Lilian Pacce, e organizado pelo vice-presidente do Pró-Música, Júlio César de Souza Santos.)   Para saber mais detalhes do livro, é só clicar Juiz de Fora,  cidade vanguardista de grande prestígio nas artes especialmente na literatura,   de grande vocação cultural, tornou-se   referência também em música erudita. O Centro Cultural por sua vez ajudou a gestar e apoiou o crescimento de diversas manifestações artísticas abrindo as portas de seu teatro, sua galeria sua escola, projetos culturais de outros grupos ...

Fiéis defuntos

 

Engraçado, a gente. Do que tem medo escarnece e põe nome feio. Morte, por exemplo. Verdade que a própria palavra morte não sendo bela, tem contudo a sua dignidade; tanto ela, como as que dependem de seu radical: morto, mortal, mortalidade. Porém, todos os mais vocábulos que com a morte se relacionem, quando não são o simplesmente horrível, são ligeira ou pesadamente sobre o grotesco. Defunto, cemitério, cadáver, esqueleto, caveira, cova, sepultura, múmia, embalsamar, velório, funeral, moribundo, ossuário, verme, formol, fantasma, necrotério, viúvo — e ainda a mais repugnante de toda: papa-defunto. E não adianta apelar para as formas eruditas, porque ainda fica pior: necrópole,, sarcófago, inumar, exumar, necrológio, exéquias, parca, féretro.

Aliás, é natural. A gente escarnece da morte e dos seus derivados como escarnece do diabo: vale como único recurso de medo, que a zombaria é uma defesa. Já falar mal é outra coisa. Fala-se mal da vida, sim, mas de boca cheia, assim como se fala mal de amante muito amada; fala-se mal com carinho, fala-se mal para não gabar. Todos acham bom viver, de qualquer jeito. Até sofrendo, sangrando, chorando — mas vivendo!

 

Ai, a hipocrisia do culto dos mortos!   No fundo, o que os homens desejam unicamente em relação aos mortos é esquecê-los. Foi preciso que a Igreja usasse de toda  a sua autoridade e tradição a fim de impor um dia dedicado aos finados, o culto e as orações pelos fiéis defuntos, ou almas do purgatório. E se os mortos não tivessem esse dia intransferível no calendário, será que realente pais e filhos, viúvos e amantes se lembrariam ao menos uma vez por ano, e cuidariam desses amores enterrados? O fato é que nenhum de nós passa por perto ou entra num cemitério sem sofrer aquela picada aguda do sentimento de culpa. Se é cemitério pobre, o capim e os carrapichos tomam conta, encobrem as cruzes de madeira que se desfazem devagarinho, as trepadeiras bravas se enfiam pelas fendas da alvenaria ordinária. E quando o cemitério é rico, a tristeza ainda é pior, porque ao abandono se ali a pretensão; e não há, para consolo, aquela insolência de verde brotando da terra. Ali reina o cimento, a pedra fria. O mármore riscado de chuva, o bronze azinhavrado dos anjos chorões, as  capelas cheirando a decomposição, as árvores magras, as plantas mal cuidadas.

Lá vai um enterro de homem rico, ou homem grande — quase sempre as duas coisas, porque é muito difícil um grande que não se arranje para ser rico, ou um rico para ser grande. O caixão é de ouro ou o que ouro vale, as palmas negras tremem ao vento, o acompanhamento  mede-se por quilômetros de automóveis e as coroas foram oferecidas em tal número que vários carros navegam atrás do carro-chefe, arrastando-se, esmagados, ao peso de tanta flor.

Na necrópole — (pois rico se enterra em necrópole) estenderam um toldo por sobre a cova aberta — que não é bem cova, é uma gaveta de cimento, já que outra idiossincrasia de rico é ter medo do contato rude da terra nossa mãe; debaixo do toldo, carpidores e parentes estarão a cômodo para declamar os seus discursos, livres do sol ou da chuva. E os necrológios tremem ao ar, como as plumas negras do carro de primeira classe, e o padre joga água-benta sobre a carne dada aos vermes enquanto encomenda a alma ao terrível juiz, e as mulheres choram nos lenços, e depois começa o “ballet” da colher de cal: cada um desfila em passo miúdo, estende o braço, colher na cal, colher na cova, passa adiante, vem outro, colher na cal — pode levar horas, quanto mais impressiona. Custa, mas afinal tem um fim — graças a Deus que tudo no mundo tem um fim. E nesse fim se dissolve o cortejo, e cada um volta para sua casa, comer bem e dormir bem, retemperando as forças para o outro ritual sinistro que é a parte social da missa do sétimo dia. Deixe porém passar esse sétimo dia e então volte ao cemitério — quero dizer, à necrópole. E veja que cenário desolado. Parece até, Deus que me perdoe, mas parece um terreno baldio de subúrbio, de onde um circo se mudou. Lá estão aos buracos no chão, dos tornos que seguravam o toldo. Os montes pisoteados de terra remexida, os papéis amarrotados que envolviam os ramos. E, pior de tudo, o amontoado sinistro das coroas que apodrecem ao sol, mostrando as entranhas de arame, e lata e taboca, e de onde pendem, crestados, os lírios irreconhecíveis, as rosas despetaladas, as saudades e as orquídeas negras como insetos mortos, as fitas em farrapos de onde as letras douradas já caíram. Quer dizer que todo aquele luxo e aqueles carinhos não eram pelo morto, coitadinho, que ali ficou largado e esquecido, era só mesmo para impressionar os vivos.

Comovente, em verdade, é enterrinho de anjo pobre. O caixão de boneca, o gurizinho morto, de faces pintadas, mortalha de cetim, cachinhos enrolados, como se fosse sair na procissão. As moças carregando o leve fardo vestem de branco não ousam chorar, que faz mal para o anjinho. Quase nunca se vê a mãe — mãe não gosta de acompanhar enterro. Tem medo do choque da terra em cima das tábuas finas, E, depois, mãe desolada não precisa de ir a cemitério. Quem tem um filho morto, podem enterrá-lo no chão, podem afundá-lo no mar, podem virá-lo em cinza, escondê-lo. Nada disso o afasta. A mãe sabe muito bem que a cova verdadeira do filhinho defunto é dentro do peito  dela, no lugar onde havia um coração.

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