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Pró-Música: uma ideia que deu certo

  Se fosse possível definir o Centro Cultural para a música em um verbo , esse verbo seria realizar. Criado em dezembro de 1971 para promover um concerto mensal de música erudita a instituição sem vínculo com o poder público ou fins lucrativos promoveu em 40 anos ininterruptos mais de 3800 eventos gratuitos para milhões de espectadores. ( do livro Centro Cultural Pró-Música, 40 anos, publicado em 2014 pela UFJF e escrito pelas jornalistas Gilze Bara e Lilian Pacce, e organizado pelo vice-presidente do Pró-Música, Júlio César de Souza Santos.)   Para saber mais detalhes do livro, é só clicar Juiz de Fora,  cidade vanguardista de grande prestígio nas artes especialmente na literatura,   de grande vocação cultural, tornou-se   referência também em música erudita. O Centro Cultural por sua vez ajudou a gestar e apoiou o crescimento de diversas manifestações artísticas abrindo as portas de seu teatro, sua galeria sua escola, projetos culturais de outros grupos ...

Cine Teatro Modelo

 

 


 

 O auge que a invenção  do cinema provocou em todo o mundo, Mar de Espanha  chega a ter ao mesmo tempo três  salas exibidoras-—Moreira, Bogary e Íris — todas localizadas  ao redor do Parque Municipal. A feroz concorrência  acaba por prejudicar todas elas.  O Moreira é arrendado  a Gabriel Jorge, o Gibran. O Bogary desaparece sem deixar descendentes. O dono do Íris é  o comerciante  de tecidos  e armarinho de nome Santinho. Ele teve a ousadia empresarial de instalar sala com cadeiras de assentos móveis, de palhinha para por no chinelo os duros bancos de madeira  da sala explorada pelo Gibran. Foi logo à  falência. O desastre    origem à  pilhéria dirigida contra os garotos que andam com as braguilhas das calças  desabotoadas:

—Você  sabe porque  o Santinho abriu falência?

 — Não,  foi porque andou vendendo botão  fiado  a você.  


 

A concorrência  com o Íris leva Gibran a emprestar dinheiro com seu patrício Antônio  Elias para adquirir o prédio e empreender  ampla reforma do velho Moreira. A sala de projeção  passa a ser perpendicular à  rua, com plateia e galerias  dotadas de cadeiras confortáveis, moderno equipamento de projeção, e o que é  mais importante, grande caixa de teatro com camarins, alçapão, ponto e área  para orquestra. A cidade tem agora boa  casa de espetáculo .

Gibran a batiza  de Cine Teatro Modelo. E alardeia  que é a melhor da Zona da Mata! Pelo palco do Modelo passam dramas e comédias  encenadas por companhias  cariocas, mágicos, faquires e sanções  que costumam lançar desafios  aos moradores da cidade... e até  uma trupe de fantoches que possibilita ao inteligentíssimo garoto Rubinho Padilha, nosso conterrâneo  assenhorar-se dos segredos da arte, a ponto de após  a partida da companhia, apresentar espetáculos semelhantes, com bonecos fritos por ele mesmo.    


 
Gibran e D. Semiramis (Filhinha). Foto extraída do livro “Antes que a luz se apague” de Nicola Falabella

 

A vida na cidade passa a girar em torno do cinema, teatro e bar do Gibran. E como sou vizinho e amigo dos filhos dele,  passo a desfrutar a regalia de ver as fitas de graça, entrando pela porta que liga a residência  à  plateia. A intimidade é tamanha que, certa noite, tendo dormido durante a sessão, acordo no salão às escuras e vazio, apenas iluminado vagamente pela lâmpada de um dos postes da rua.

Apavorado, começo a gritar pela ajuda dos moradores, principalmente por  me ocorrer a lembrança de que a casa tem fama de ser mal- assombrada.


 

Gibran é empresário dinâmico dotado de imaginação fértil. Além de anunciar, mediante programas impressos tipograficamente, a exibição dos filmes,  expõe  tabuletas com cartazes nos principais pontos da cidade. De uma feita, contrata o Pirulito, palhaço aposentado, para apregoar com megafone, dentro de uma guarita móvel, o espetáculo em cartaz. Uma das mais originais criações publicitárias  do Gibran é a experiência. Ela é precedida pelo ritual do recebimento, na estação da Leopoldina, da lata com o filme programado, que é levado tem carrinho de mão pelo gordo Gibranzinho, sempre acompanhado por ruidosa garotada. O ritual prossegue com Gibran, ao abrir e  examinar, compenetrado, sob os olhares de expectativa dos curiosos, as condições do picotado de uma das partes. E termina, via de regra, com a decisão de projetá-la gratuitamente a fim de que os presentes apreciem e recomendem aos demais aficionados. Outra  curiosa inovação por ele introduzida em sua sala de projeção: uma lâmpada vermelha, instalada ao lado da tela, a qual é acesa, alguns segundos antes de terminar a parte, com a finalidade moralizadora de alertar casais românticos descuidados...Para ajudá- lo na administração do cinema, Gibran conta com o seu cunhado Geraldo Gouveia, o Dadinho rapaz, inteligente e trabalhador.

 

Geraldo Gouveia (Dadinho) se tornou muito conhecido devido a um serviço de alto-falantes que mantinha no Jardim.

Ele tem uma irmã de nome Margarida, minha colega de classe no grupo escolar e uma das minhas primeiras namoradinhas... Além de cuidar da programação, Dadinho  já desempenha a importante função de projecionista. Ajuda- o na colagem de folhas de papel em branco sobre as tabuletas, para nelas serem montadas fotos e cartazes coloridos e pintadas as bombásticas expressões de propaganda do filme a ser exibido. Dadinho está sempre lendo as revistas a Cena Muda e Cinearte que o mantém informado das novidades do mundo do cinema. 

 

 


Um dia, ele me chama para ver no escuro e estreito corredor de acesso ao salão principal, a projeção mediante pequeno aparelho de fitas de 9,5  milímetros cujo picotado é no meio de cada fotograma. São filmes mudos, legendados, versando assuntos bíblicos. Observando- o manobrar o projetor, inserir e rebobinar as películas, regular o foco e fazer inclusive hilariantes retroprojeções— aprendo minha primeira lição de técnica cinematográfica. Minha admiração por Dadinho cresce dia a dia. E culmina quando ele me concede o privilégio de conhecer a cabine do Modelo, lugar de acesso restrito, praticamente a ele e ao Gibran. Nela penetro trêmulo  de emoção.

 

 Um forte cheiro de banana — cola de filme— impregna o ambiente. Dadinho  mostra-me como funciona o projetor, seu arco voltaico a mesa de revisão e colagem de fitas rebentadas. Ao fazer a emenda de  dois pedaços de filme, surpreende-me:

 —Você quer um quadrinho do Tarzan?

 Sem esperar pela resposta,  apanha a tesoura e corta, com cuidado, o fragmento de celuloide. Passo a andar com ele no bolso, para mostrá-lo como preciosidade à minha patota. Não me farto de observar Tarzan caminhando pela clareira na floresta, vestindo apenas uma tanga de pele de leopardo, pronto para enfrentar e vencer homens e feras...

 Foi na tela do Modelo que eu  e os de minha geração vimos e nos deliciamos com os primeiros faroestes estrelados por Bill Farnum,  Tom Mix, William Desmond, Hot Gibson, Ken Maynard e outros; as comédias de Max Linder, Mack Sennet, Charles Chaplin(Carlitos), Bem Turpin, Chico Boia e Buster Keaton; os seriados Perigos de Paulina, Aventuras de um Escoteiro, Flash Gordon, Tarzan, além dos primeiros desenhos animados do pioneiro Koll, as peripécias da dupla Mutt & Jeff(um alto e o outro baixinho...)


 
E grandes dramas como o Despertar de uma Nação, O Fantasma da Ópera, O Corcunda de Notre Dame, A Cabana do Pai Thomáz e Metrópolis...


 

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