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Causos da Quaresma
Minha infância e de quase toda a geração de mineiros do interior foi marcada pelas histórias de quaresma. Tempo de jejum e penitência para os adultos. Para nós, crianças, tempo de ouvir de avós e empregadas antigas, histórias de arrepiar.
Sequer íamos ao quintal à noite. Vai que a mula sem cabeça passasse por lá. "É só rezar o crendeuspai” dizia minha vó. Melhor não arriscar.
E tinha o caso de uma procissão de almas penadas que passava quando o relógio batia meia noite. E de uma mulher de branco, que aparecia debaixo de uma paineira antiga, lá na Várzea.
Na roça, então, não havia quem não ouvisse cachorros latindo, bois e porcos agitados durante à noite. Prova de que o sobrenatural passou por lá.
E as superstições continuavam na sexta-feira santa. Além do jejum, não se varria casa. Nada de ligar o rádio, nem buzinas de carros. Silencio respeitoso pela morte de Cristo. Os fazendeiros doavam leite nos currais.
E quando a noite chegava, saía a procissão do Enterro. As luzes da cidade eram apagadas. A lua e as velas iluminavam o cortejo. Homens de um lado, mulheres de outro. E a cada esquina, Veronica, coberta por um véu negro, cantava seu triste lamento.
Lembranças remotas de um tempo, em que a religião tinha uma outra conotação em nossas vidas. Era uma mistura de respeito e medo da punição divina. Hoje, me sinto, espiritualmente, mais leve. Mas continuo fascinada por causos de assombração.
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