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Caminhos para as Gerais
É com prazer que compartilho com o grupo o relato de cunho memorialístico, de autoria de Samuel Machado, intitulado “ Caminhos para as Gerais”, publicado no livro Caminhos, da Editora Núcleo Digital. Segundo o autor, seu relato tem uma conotação lírica, com elementos imaginados e outros realistas. Uma narrativa que encanta o leitor ao retratar uma viagem de ônibus do Rio de Janeiro a Minas. As estradas empoeiradas ou com lama, a linda serra de Petrópolis, a antiga rodoviária na Praça Mauá, da qual tenho muitas recordações. Tomei a liberdade de ilustrar esse rico trabalho com fotos de vários lugares do trajeto que despertavam nossa atenção.
Ainda sob o manto da madrugada, minha mãe colocava a mão, suavemente, sobre as minhas pernas, despertando-me do sono apressado pela ansiedade do esperado dia de viajar. As malas arrumadas há três dias colocadas ao lado de minha cama eram constantemente vigiadas até ser vencido pelo sono. Do despertar ao leve desjejum, não se passavam nem quinze minutos. Estava eu, de pé, pronto para o primeiro ônibus da manhã em direção à rodoviária na Praça Mauá.
https://bafafa.com.br/turismo/historias-do-rio/antiga-rodoviaria-do-rio-construida-em-1950-na-praca-maua-ficou-sobrecarregada-em-poucos-anos
Lá íamos, meu pai, meu irmão mais velho e eu. Cada um com sua pequena mala, preenchida com peças parecidas, feitas do mesmo tecido, sobras de cortes de freguesas de minha mãe costureira. Peças singelas, shorts e camisas de três botões, para facilitar o abotoamento e economizar em aviamento, mas de uma riqueza e carinho de valor incalculável.
https://brasilianafotografica.bn.gov.br/?tag=petropolis
Para alcançarmos os caminhos para as Gerais precisávamos tomar um ônibus até Petrópolis. Em minha perspectiva de cinco anos de idade, vencer a imponente serra, sentado ao colo de meu pai, só me permitia ver, através das altas janelas, a copa das árvores e o cume das montanhas envoltas na densa neblina da manhã. Meu pai nos acompanhava até a rodoviária de Petrópolis, onde embarcávamos no “lotação” do “Seu Homero”, para o tão sonhado destino. Éramos confiados ao motorista como se fôssemos a um ente próximo.
Os anos 60 era a época em que o respeito humano e a valorização da amizade estavam acima da lei e dos regulamentos de trânsito. Naquele momento, começava aquela que seria a mais enriquecedora experiência que uma viagem poderia oferecer. Homero, homem franzino, bigode fino e branco, estatura baixa, com sua calça azul marinho e camisa cáqui e os cabelos assentados com brilhantina. Aos meus olhos, parecia um comandante conduzindo uma portentosa máquina de guerra.
Os primeiro assentos já estavam garantidos para nossa presença. Recomendação de meu avô que estaria na rodoviária de Mar de Espanha a nossa espera. Meu pai fazia as costumeiras recomendações:
- Homero, não deixe estes meninos te perturbarem durante viagem!
- Pode deixar, Machado.
- Eles já sabem que não se pode conversar com o motorista, respondia Homero
- Mantenha-os sentados, por favor, principalmente este perguntador aqui!
- Deixe que eu me entendo com este pequerrucho.
Eu nunca entendia este breve diálogo. Como é que não podia conversar com o motorista se o Expedito ia a viagem inteira atrapalhando minha conversa com o Seu Homero?
Expedito era o trocador, que insistia que eu o chamasse de “agente de passagens”. Para mim, ele era trocador. Ia picotando as passagens e cobrando dos passageiros que embarcavam no decorrer da viagem.
Eu sonhava ser trocador de ônibus quando crescesse. Fascinava-me vê-los com todas aquelas notas de dinheiro dobradas entre os dedos. No meu imaginário, não existia pessoa mais rica.
Meu irmão, na sua primazia e tirania de mais velho, assim que saíamos da vista de meu pai, reivindicava o lugar na janela. Eu não me importava, porque tinha meu lugar cativo.
Contrariando as recomendações de meu pai, ia eu ao lado de Seu Homero, sentado sob o “capot”, onde, dentro, pulsava um forte Magirus Deutz, sabiamente controlado pelo experiente motorista.
Minha perspectiva ótica só era atrapalhada pela coluna central que dividia os pára-brisas e a ponta do “capot” externo. Como a proa de uma nau que apontava a direção da viagem.
Mal deixávamos a rodoviária, lá estava eu tomando posse do “meu convés”, como um contramestre e disparando o “perguntador”, como dizia seu Homero.
- Quanto corre este lotação?
- O quanto precisa! Respondia de forma lacônica, o paciente motorista.
- Porque o senhor mexeu nesta alavanca?
- Eu disse ao motor que ele precisa se esforçar! Traduzia para meu nível de compreensão.
- O senhor mexeu de novo!
- É. Agora eu disse que ele já pode se acalmar!
Entremeios a minha inata curiosidade, o Expedito contava sobre seus casos amorosos com uma riqueza de detalhes. Seu Homero, apenas com um olhar e um franzir de testas, refreava o ímpeto do impertinente e indiscreto trocador.
Lá ia o valente lotação serpenteando pela antiga União Indústria, disputando espaço com os Chevrolet Brasil, os mal encarados FNM, elegantes Belairs e tímidos Fusquinhas.
Dentro do veículo, uma verdadeira Babel. Seus folclóricos passageiros cruzavam conversas de um assento para outro, da frente para os fundos, do corredor para a janela, da poltrona quinze para a vinte e dois. Uma algazarra. Só suplantada pelos urros do motor, em uma subida mais íngreme.
”Vencido o primeiro trajeto até Serraria, na época distrito do Município de Três Rios, parávamos no Bar e Restaurante Princesa. Parada para as damas se recomporem e os homens tomarem um pingado com pão e manteiga.”
Eu trazia meu lanche de casa. Minha mãe dizia que era perigoso comer coisas “na rua”. Ia ao banheiro rapidamente e voltava para meu posto de subcomandante. Sempre sob os olhos atentos do responsável motorista.
Mas antes de embarcar, ouvi Seu Homero perguntar ao dono do estabelecimento:
- Como está a estrada?
- Deve estar complicado pros lados da Serra de Sossego. Choveu muito à noite passada.
- O caminhão de leite só saiu do atoleiro hoje de madrugada, com auxílio do trator do seu Altino, complementou Sebastião, o balconista, enquanto servia o café.
- Vai ter que ser na base da corrente então, disse Seu Homero.
Era a deixa para meu coração disparar, pela certeza de mais uma aventura desbravadora.
Olhava para trás do banco do motorista e conferia. Lá repousavam três enxadas e uma caixa de madeira com um emaranhado de correntes.
Meu coração de menino batia forte. A viagem teria ingredientes de pioneirismo.
Seu Homero tomava lugar ao volante e disparava, três vezes, as duas cornetas sobre o capot. Era o toque da buzina para os mais atrasados.
Atravessávamos a ponte de ferro sobre o Rio Paraibuna., cruzávamos a linha férrea e iniciávamos aquilo, que, para mim, não era mais uma estrada e sim uma verdadeira odisséia.
Acabávamos de deixar o futuro. Vias asfaltadas, estradas sinalizadas e veículos apressados. Mergulhávamos no bucólico passado. Sessenta quilômetros de estrada de terra batida, sinuosa, respeitando os contornos dos morros e serras, disputada por carros de bois, tropas de mulas, jipes e velhos caminhões.
O lotação ora ondulava de um lado para outro, ora saltitava nas costelas formadas no piso de saibro.
Eu, atento a tudo ao longe, vislumbrava o grande rochedo conhecido como “pedra preta”, que sempre associei a um majestoso elefante.
- Olha ali no canto da estrada! Se esgueirando e fugindo apressado na frente do veículo.
- O que é aquilo, Seu Homero? É um coelho? Induzia eu, antes que ele respondesse.
- Não. É um preá.
Expedito, a gargalhar, zombava de minha ignorância rural.
- Esses meninos de cidade grande não diferem uma galinha d’angola de um pato, que dirá um coelho de um preá!
Nem me importava. Meus olhos já captavam outra imagem deste mundo fantástico. Logo depois da curva, embaixo de um bambuzal, um grupo de bovinos escondia-se do sol abrasador da tarde de dezembro.
O lotação se aproximava, cuidadosamente, como se pedisse licença por importuná-los naquele momento.
Ansioso, insistia com Seu Homero para deixar-me fazê-los levantarem com toar da buzina. Era uma realização poder pressionar o símbolo M, estilizado como um foguete, no centro do volante.
Pacientemente, Seu Homero me colocava de pé diante do volante e deixava que eu comandasse a sinfônica buzinada.
Preguiçosamente, os animais iam se levantando um a um. O hábil condutor esgueirava-se entre eles, quase roçando a pelagem viçosa das reses.
Alguns passageiros, com os braços do lado de fora das janelas, batiam na lateral do veículo, entoando Eiaaaa!, Xôoo! Passa Mimosa!
Eu, a sorrir com toda esta magia rural.
Debruçados sobre um vale profundo, avistávamos, à nossa esquerda, um gavião campeiro que sobrevoava a possível caça. À direita, à vegetação que margeava a estrada tingida de vermelho, sorteada de biquinhos de lacre, canários da terra e sabiás.
Antes de começarmos a subir a serra, vislumbrava a cachoeira da fumaça, engrossada pelas torrenciais chuvas da noite anterior. Majestosa queda d’água que se prenuncia no sopé da serra.
Ao começarmos a subir a serra, cruzávamos com o caminhão de leite do Tonhão da Cooperativa de Sossego.
Seu Homero emparelhava a seu lado e cumprimentava-o, indagando sob as condições mais à frente.
Tonhão respondia:
- O trem tá feio, Homero! Logo depois da entrada da fazenda de Dona Constança tem um lameiro de dar dó.
- “Têm mais de hora que num passa nenhum carro pra essas bandas de cá”. Deve ter gente agarrada lá no curvão do bambuzal.
Seu Homero agradecia a informação e seguia pensativo. Eu observava que seu semblante está mais franzido do que de costume.
Mesmo na minha tenra idade, eu entendia que havia uma hora para falar e outra para se calar.
A estrada se estreitava como quisesse engolir todos que se atrevessem a violá-la. O mato, fortalecido pelo calor e as constantes chuvas, invadia em arco sobre a passagem roçando a lataria do veiculo, como se o acariciasse.
Com entusiasmo, víamos um caminhão da Klabin carregado de caulim em sentido contrário. Bom presságio! Significava que os caminhos não estavam fechados.
A lotação se encolhia do lado direito, dando passagem milimétrica ao pesado FNM.
- “Brigáaado”. Erguia o braço esquerdo, o motorista, ao passar por nós.
- O que ele disse, Seu Homero? Não resistindo mais ficar calado.
Raimundo, mais que depressa, tentava deturpar a resposta.
- Ele xingou v...
- Expediiito!! Repreensivo, exclamava Seu Homero.
- Ele agradeceu, meu filho!
Raimundo, a gargalhar, satisfazia-se mais com a intenção do que com o resultado.
Quase três e meia da tarde. Subíamos a íngreme Serra do Sossego com o motor oscilando como uma onda senoidal, conduzido com todo cuidado e apreensão pelo experiente Homero. Virava para a direita, reduzia; acelerava, esterçava para esquerda, “triscava” no freio e voltava a acelerar.
Avistávamos o lamaçal descrito pelo Tonhão.
Seu Homero parava o veículo e descia para avaliar a situação.
Aos meus olhos, parecia um espelho cor de chocolate. Uma camada fina de lama, como se fosse uma calda, estendendo-se por uns cem metros.
- Deve ter umas dez jardas, dizia Seu Homero, coçando o queixo com ar de preocupação.
Raimundo imitava o gesto balançando a cabeça afirmativamente, como se tivesse entendido e soubesse o que é uma jarda.
- Pega lá as correntes, Raimundo. Só no pneu a gente não passa.
Mais dois passageiros desciam para ajudar a “vestir as rodas” com a malha de elos que atuaria como um trator de esteiras.
A frente do lotação mergulhava no canal formado pelo lamaçal. Seu Homero mantinha firme a aceleração. Avançava como uma nau singrando um rio, serpenteando de um lado para o outro, como se flutuasse.
Meus olhos vidrados, quase colados aos pára-brisas, alimentavam minhas fantasias e criava enredo para as minhas “brincadeiras de carrinho” futuras.
Todos, apreensivos e, eu, sorrindo de felicidade em completo êxtase.
O veículo emergia do lamaçal, triunfante. Seu Homero olhava para Raimundo sorrindo. Seus olhos pousavam sobre mim com aquele sorriso emoldurado pelo fino bigode, como se esperasse minha aprovação. Tinha mais do que isso. Tinha minha admiração.
À tarde já começava a se alaranjar. As montanhas já se preparavam para acolher o sol.
Alcançávamos o topo da serra.
A viagem seguia morosa. Os pneus acorrentados não podiam tracionar com velocidade, mas a maior emoção ainda estava por vir.
A temida curva do bambuzal já havia feito dois reféns.
Presa, entre o barranco e os sulcos produzidos pelos veículos mais pesados, estava a Rural do seu Elias de Pequeri.
Uns dez metros do lado contrário, debatia-se um pequeno Ford F100, com o pára-choque cravado na lama.
A partir deste momento, eu entendia o espírito pioneiro que norteava os homens que venciam os caminhos das Gerais.
Todos que podiam colaborar com a empreitada, desciam do lotação. Alguns empunhando as enxadas que estavam atrás do banco, outros buscando pedras soltas para calcar as rodas. Todos imbuídos do espírito de colaboração, sem se importarem com as vestes.
Do ponto de vista sinérgico, da força de trabalho conjunta, a cena era fascinante.
Meus olhos fartavam-se de cada movimento que minha tenra visão alcançava. As mulheres rezando, as outras crianças querendo descer e, eu, soberano em meu posto de observação. Solidário, deixava meu irmão e mais dois meninos se aproximarem do meu posto de vanguarda.
Meu irmão, quatro anos mais velho, tentando impressionar os outros meninos, buscava antecipar os movimentos dos homens. Como se pudesse saber mais do que eu. Não tardaria, ele teriam que voltar para as suas limitadas cadeiras; o colo dos pais, dividindo as pequenas janelas horizontais.
O sol já tocava a serra, tons violetas tingiam o céu. Os brados dos homens, imbuídos em suas tarefas, se misturavam com os primeiro acordes da sinfonia noturna. Grilos, sapos coaxando e cigarras encerrando seus solos, anunciavam o verão. Em um moirão, próximo da cena, uma majestosa coruja girava a cabeça como se tudo assistisse, atenciosa e parcimoniosamente.
Chegava ao local, a “Patrol” da prefeitura de Pequeri. Eu a via como um enorme ser pré-histórico, de pneus altos e lâminas de aço enviesada. Antes, era necessário retirar os veículos atolados na lama firme. Seu Sinval iria cortar o talude formado pelos sulcos provocados por veículos mais pesados. Em seguida, uma cascata de cascalho de mármore e saibro, vindos das Minas da Caeira era despejada pelo caminhão basculante, dando fim ao barreiro.
Depois de muito cavar e chacoalhar, a implacável lama libera a Rural. Agora só faltava o “Fordinho”. Este foi bem mais simples Os esforços humanos foram substituídos pela imponência da niveladora que, com auxílio de correntes atreladas ao pára-choque, em menos de um minuto, liberava-o de sua agonia.
Do meu posto, eu alimentava as minhas fantasias com toda aquela movimentação de homens e máquinas interagindo em um mistura de força, determinação e coragem. Em minhas brincadeiras, no adro da Igreja da Matriz iria vivenciá-las no meu mundo.
Todos retornavam para o lotação, aguardando a movimentação da moto-niveladora. Rostos intumescidos de suor e lama eram recortados por largos sorrisos de satisfação e glória.
A sensação do dever cumprido invadia o interior do veículo. Uma algazarra de comentários e brincadeiras amenizava o cansaço físico.
Piso recomposto por um tapete branco de pequenas e brutas pedras mármores, lá íamos nós, vencendo mais uma jornada por caminhos rústicos dos tempos de outrora.
As prefeituras de Pequeri e Mar de Espanha, em conjunto, já vinham, desde cedo, recompondo os trechos mais difíceis e deteriorados da estreita estrada.
A noite havia nos alcançado. A sinfonia agora era uníssona. Em todo o percurso ouvia-se o coaxar ritmado dos sapos e rãs, o estridente trinar de incontáveis grilos e pequenos insetos.
Todos interrompiam o vesperal na passagem do lotação, como se reverenciassem a desbravadora carruagem de aço.
Nossos caminhos, agora dominados pela escuridão, eram iluminados por flashes ao longe. Prenúncio de outra noite de fortes chuvas. Característica marcante das primeiras noites de dezembro, anunciando o verão.
Passávamos por Pequeri. Parada apenas para a decida de alguns passageiros. Os ponteiros já avançavam duas horas além do tempo. Seu Homero tinha que se apressar. O lotação tinha que estar pronto para sair às cinco horas da manhã, retornando a sua origem.
Eu seguia atento ao balé desencontrado de borboletas, mariposas e insetos noturnos diante dos faróis. Os cegos besouros, vez ou outra, se chocavam com os pára-brisas. As luzes difusas, apontadas para a estrada, realçavam a brancura do cascalho de mármore e dava brilho de estrela aos pedaços de malacacheta misturados ao saibro.
Ao longe, Seu Homero me apontava o cruzeiro do morro da igrejinha de Santa Efigênia. Como um estandarte, anunciava a aproximação de nosso destino.
- Estamos chegando. Seu Pedrinho deve estar te esperando ansioso, menino!
Eu sorria de felicidade e segura tranqüilidade. Já tinha vivido tudo o que eu esperava desta incrível jornada.
Entravamos na cidade. As pessoas acenavam e seu Homero respondia com um suave toque na buzina.
- Deixa-me tocar a buzina perto da Matriz, Seu Homero?
Ele sorria com o canto da boca e respondia.
- Só atrás da Igreja. Na rua da rodoviária você tem que estar sentado no banco, senão seu avô “ralha” comigo.
Eu balançava a cabeça acatando a recomendação.
Lá ia eu, tocando ritmada, a anunciação fon, fon – fon, fon, fon, – fon. fon – fon, fon, fon. Triunfante, olhava para trás, em direção de meu irmão e à procura dos demais meninos na tênue luz interna do corredor, já acesa. Sentia-me como se tudo fora possível, porque eu estava ali.
Em frente à marquise do cinema, todos, esperavam ansiosos, a chegada dos familiares. Não existia apreensão. Confiavam na destreza e responsabilidade do Seu Homero. Nunca deixara de chegar. Horas a penar, mas sempre vencedor das agruras dos caminhos das Gerais.
Meu avô me recebia dentro do ônibus. Bigodes tingidos por alguma manga saboreada, ainda no jantar, descortinam em um sorriso, largo, feliz de nos ter em seu convívio.
Despedia-me desta aventura com um forte abraço no Seu Homero e uma tapinha dada, na minha cabeça, pelo impertinente Expedito.
No caminho para casa passávamos pela “meia lua” do jardim e pedia ao meu avô que subíssemos a escada em arcos da Igreja Matriz. Passávamos pelo adro e vislumbrava o sítio das minhas longas férias de verão. Um pátio de areia, terra e saibro onde, com meu caminhãozinho de madeira, meu novo carrinho de plástico e toquinhos de madeira, abriria estradas, contornando obstáculos; cortaria barrancos, vivenciando em mundo lúdico as emoções experimentadas daquele mágico dia.
Mas isto é uma outra história...
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