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Pró-Música: uma ideia que deu certo

  Se fosse possível definir o Centro Cultural para a música em um verbo , esse verbo seria realizar. Criado em dezembro de 1971 para promover um concerto mensal de música erudita a instituição sem vínculo com o poder público ou fins lucrativos promoveu em 40 anos ininterruptos mais de 3800 eventos gratuitos para milhões de espectadores. ( do livro Centro Cultural Pró-Música, 40 anos, publicado em 2014 pela UFJF e escrito pelas jornalistas Gilze Bara e Lilian Pacce, e organizado pelo vice-presidente do Pró-Música, Júlio César de Souza Santos.)   Para saber mais detalhes do livro, é só clicar Juiz de Fora,  cidade vanguardista de grande prestígio nas artes especialmente na literatura,   de grande vocação cultural, tornou-se   referência também em música erudita. O Centro Cultural por sua vez ajudou a gestar e apoiou o crescimento de diversas manifestações artísticas abrindo as portas de seu teatro, sua galeria sua escola, projetos culturais de outros grupos ...

A máscara da Morte Vermelha

 

Escolhi esse conto de um de meus escritores favoritos que é Edgar Allan Poe. Sempre gostei muito das histórias, causos, contos  e filmes de terror . O conto bem como a crônica são gêneros de fácil leitura e que podem  ser relidos a qualquer hora. São narrativas que prendem o leitor e o desfecho é muito importante, trazendo sempre uma surpresa.  


   

Edgar Allan Poe (1809-1849) foi um poeta, escritor, crítico literário e editor norte-americano. Escreveu contos sobre mistério, inaugurando um novo gênero e estilo na literatura. Edgar Allan Poe nasceu em Boston, nos Estados Unidos, em 1809.

 

O conceito de Multiletramento é muito difundido nos dias atuais por  considerar a multiplicidade de linguagens (visual, verbal, sonora, espacial…). Como vemos acima, temos o cartaz, o livro impresso e filme disponível nas plataformas, podcasts, memes, cartoons, charges etc. O mundo digital ampliou ainda mais essa variedade de linguagens que existiam nos meados do século XX  como o cinema, jornais , revistas, televisão e outros.

 

Resumo do Enredo

A história  discorre sobre uma epidemia chamada de morte  rubra que se abate sobre o reino onde habita o  Príncipe Próspero que então decide se proteger escondendo-se no seu castelo. Ele, junto com muitos outros nobres ricos, ficariam confinados nessa fortificação livres do contágio.

Os convidados teriam bebida e comida nesse isolamento.  É organizado um baile de máscaras em sete salas da abadia, cada uma decorada com uma cor diferente.

Uma figura misteriosa disfarçada de vítima da Morte Rubra entra, não se sabe como, e  todos os convidados  morrem. Próspero morre também após enfrentar este estranho, cujo “traje” acaba não contendo nada tangível no seu interior.

A máscara da Morte Vermelha

 

A

 “Morte Vermelha” devastava havia muito tempo  o país. Nenhuma pestilência jamais fora tão fatal, ou tão hedionda. O sangue era seu avatar e seu sinete – a vermelhidão e o horror do sangue. Havia dores agudas, e tonturas súbitas, e depois profuso sangramento pelos poros, com o óbito final. As manchas escarlate no corpo e especialmente no rosto da vítima eram o banimento pestilento que alijava a pessoa da ajuda e solidariedade de seus semelhantes. E o processo todo de acometimento, progresso, e término da doença consistia de meia hora.

Mas o príncipe Próspero era feliz, destemido, sagaz,. Quando seus domínios ficaram consideravelmente despovoados, ele convocou ante sua presença mil amigos sãos e despreocupados dentre os cavaleiros e damas de sua corte, e com eles se retirou para a profunda reclusão de uma de suas abadias fortificadas. Tratava-se de uma estrutura  extensa e magnífica, criação do próprio gosto excêntrico, mas augusto, do príncipe. Uma muralha forte e elevadas a circundava. Essa muralha tinha portões de ferro. Os cortesãos, tendo entrado, trouxeram forjas e maciços martelos e soldaram as trancas. Decidiram não deixar meio algum de ingresso para os repentinos impulsos de desespero, e tampouco de saída para o frenesi dos de dentro. A abadia estava amplamente aprovisionada. Com  tais precauções, os cortesãos podiam assim desafiar o contágio. O mundo exterior que tomasse conta de si mesmo. Nesse meio-tempo, era tolice angustiar-se ou pensar. O príncipe providenciara todos os aparatos para diversão. Havia bufões, havia improvisadores, havia dançarinos, havia música, havia beleza, havia vinho. Tudo isso mais a segurança, do lado de dentro. Lá fora, a “Morte Vermelha”.

Foi próximo ao final do quinto ou sexto mês de sua reclusão, e enquanto a pestilência assolava com o auge da fúria do outro lado, que o príncipe Prospero ofereceu a seus amigos  uma baile de máscaras da magnificência mais extraordinária.

 Foi uma cena voluptuosa, essa mascarada. Mas, primeiro, que me seja permitido contar sobre os salões onde ela teve lugar. Havia sete deles  — um conjunto majestoso. Em muitos palácios, entretanto, tais conjuntos compõem  uma perspectiva longa e desobstruída, quando as portas dobráveis deslizam até quase as paredes de ambos os lados, de modo que a visão da extensão completa mal é impedida. Aqui o caso era bem diferente; como seria de esperar devido ao apreço do duque pelo bizarro. Os apartamentos eram tão irregularmente dispostos que  a visão não abarcava mais do que um de cada vez. Havia uma curva abrupta a cada vinte ou trinta metros e, a cada curva, uma sensação de novidade. À direita e à esquerda, no meio de cada parede, uma janela gótica alta e estreita  dava  para um corredor fechado que percorria os meandros do conjunto. Essas janelas possuíam vitrais cuja cor variava de acordo com a tonalidade predominante na decoração do ambiente para o qual abria. O da extremidade leste era composto, por exemplo de azul— e suas janelas eram de um vívido azul. O segundo salão era púrpura em seus ornamentos e reposteiros, e aqui as vidraças eram púrpuras.

 


“O segundo salão era púrpura em seus ornamentos e reposteiros, e aqui as vidraças eram púrpuras. “

 O terceiro era inteiramente verde, e igualmente o eram os vidros em seus caixilhos. O quarto era mobiliado e iluminado em laranja— o quinto, em branco — o sexto em violeta. O sétimo apartamento era densamente amortalhado em reposteiros de veludo negro pendendo por todos os lados do teto e das paredes, caindo em pesados drapejamentos sobre um tapete do mesmo material e matiz. Mas apenas nesse recinto a cor das janelas deixava de corresponder à da decoração. As vidraças eram escarlate— uma profunda cor de sangue. Ora, em nenhum dos sete aposentos havia lamparina ou candelabro em meio à profusão de ornamentos dourados que jaziam espalhados  por todo o recinto ou pendurados no teto. Não havia luz de espécie alguma emanando de lamparina ou de vela dentro do conjunto de salões. Mas nos corredores que atravessavam o conjunto ficava, diante de cada janela, um pesado tripé portando um braseiro incandescente que projetava seus raios através do vidro colorido, desse modo, iluminava intensamente o ambiente. E assim  se produzia uma variedade de fenômenos extravagantes e fantásticos.


O conto faz parte dos oito trabalhos do escritor adaptados  para o cinema pelo cineasta Roger Corman no início dos anos sessenta. Entre eles, se destacam, O Poço e o Pêndulo, O Castelo Mal-assombrado, Obsessão Macabra, entre outros. Os filmes sempre reproduzem esse universo fantástico de Poe com castelos mal- assombrados, gatos pretos, hipnose, ambientes medievais, loucura, fantasmas e a morte.

Mas no aposento oeste, ou salão negro, o efeito da luz do fogo que vertia sobre os reposteiros escuros através das vidraças tintas de sangue era macabro ao extremo e produzia uma expressão tão selvagem nos semblantes dos que ali entravam que poucos dentre os convidados eram suficientemente ousados para até mesmo pisar ali dentro.

Havia nesse aposento, ainda, encostado na parede oeste, um gigantesco relógio de ébano.  Seu pêndulo oscilava de um lado para o outro com um ruído surdo, pesado, monótono; e quando o ponteiro dos minutos completava seu percurso diante do mostrador, e soava a hora, dos brônzeos pulmões do relógio brotava um som distinto, alto, profundo, extraordinariamente musical, mas vibrando com nota e ênfase tão peculiares que, ao lapso de cada hora, os músicos da orquestra eram obrigados a fazer uma pausa momentânea em sua apresentação, para escutar o som; e desse modo os valsistas forçosamente interrompiam suas evoluções; e um breve desconcerto tomava conta de toda a alegre comitiva; e, enquanto o carrilhão do relógio ainda soava, observava-se que os mais agitados iam ficando pálidos, e os mais idosos e entorpecidos passavam a mão na testa como que em confuso devaneio ou meditação. Mas quando os ecos cessavam por completo, risadas despreocupadas percorriam na mesma hora a multidão, os músicos se entreolhavam e sorriam como que de seu próprio nervosismo e tolice, e prometiam uns aos outros, sussurrando, que os próximos repiques do relógio não produziriam neles semelhante emoção; e então, transcorrido o intervalo de sessenta minutos(que compreende três mil e seiscentos segundos do Tempo que voa), seguia-se outro repique do relógio, e então  o mesmo desconcerto, tremores e meditação de antes.

 



“Havia nesse aposento, ainda, encostado na parede oeste, um gigantesco relógio de ébano.  Seu pêndulo oscilava de um lado para o outro com um ruído surdo, pesado, monótono; e quando o ponteiro dos minutos completava seu percurso diante do mostrador, e soava a hora, dos brônzeos pulmões do relógio brotava um som distinto, alto, profundo...”

 

Mas despeito dessas coisas, era uma festa alegre e magnífica. Os gostos do Príncipe  eram peculiares. Ele era dono de um olho aguçado para cores e efeitos. Desprezava os decora da mera moda. Seus projetos eram ousados e apaixonados e suas concepções brilhavam com esplendor bárbaro. Há esses que o teriam julgado louco. Seus admiradores não pensavam assim. Era necessário ouvi-lo. Vê-lo, tocá-lo para ter certeza de que não e o era.

Fora ele que escolhera, em sua maioria, os adornos dispostos nos sete salões, por ocasião dessa sua grande fête; e fora a orientação de seu próprio gosto que determina a caracterização dos mascarados. Sem dúvida eram grotescos. Havia muito brilho, esplendor, coisas chamativas e espectrais— muito do que se tem visto desde o Hernani. Havia  figuras arabescas vestindo peças incongruentes. Havia extravagâncias delirantes como as que concebem os loucos. Havia beleza em excesso, bizarro em excesso, um quê de terrível e não pouco do que poderia ter suscitado aversão. Esgueirando-se aqui e ali pelos sete salões o que se via de fato era uma multidão de sonhos. E estes—os sonhos— se contorciam por toda a parte, assumindo  o matiz dos aposentos, e fazendo a frenética música da orquestra parecer um eco de seus passos. E logo badala o relógio de ébano no salão de veludo. E então, por um momento, tudo é quietude, e tudo é silêncio, salvo a voz do relógio. Os sonhos estacam em rígida imobilidade. Mas os ecos do carrilhão se desvanecem—não duraram mais que um instante—, e uma risada despreocupada, meio contida, flutua atrás deles conforme  se vão. E agora mais uma vez a música se eleva, e os sonhos revivem, e se contorcem de um lado a outro com mais alegria do que nunca, assumindo matiz dos inúmeros vitrais através dos quais vertem os raios dos tripés. Mas no salão que fica mais a oeste dos sete nenhum dentre os mascarados se aventura: pois a noite se extingue lentamente; e lá flui os  a luz mais rubra através das vidraças tintas de sangue; e o negros dos cortinados cor de sable horroriza; e àquele cujo pé pousa no tapete cor de sable chega do relógio de ébano próximo um dobre abafado mais solenemente enfático do que qualquer um que alcança os ouvidos deles que se comprazem na alegria dos demais aposentos.

Mas esses outros aposentos estavam densamente abarrotados, e neles bate febrilmente o coração da vida. E a festa prosseguia rodopiando, até que enfim começou a soar a meia-noite no relógio. E então a música cessou, como que a um comando; e as evoluções dos valsistas se aquietaram; seguiu-se uma inquietante cessação de todas as coisas, como antes. Mas agora havia doze badaladas a soar no sino do relógio; e desse modo aconteceu, talvez,  antes que os últimos ecos do último toque houvessem mergulhado completamente no silêncio, haver inúmeros indivíduos na multidão que lentamente se deram conta da presença de uma figura mascarada que não chamara a atenção de um único indivíduo antes. E tendo o rumor dessa nova presença se disseminando aos sussurros pelos salões, enfim surgiu em toda a comitiva um burburinho, ou murmúrio, expressando desaprovação e surpresa— e depois, finalmente, terror, horror e aversão.

Em uma reunião de fantasmagorias tal como essa que pintei, deve-se muito bem supor que para estimular tal comoção a aparição nada tinha de ordinária. Na verdade a licença para fantasias  da noite era quase ilimitada; mas a figura em questão superava em herodianismo  o próprio Herodes e fora além dos limites até do indefinido decoro do  príncipe. Há cordas  nos corações dos mais negligentes que não podem ser tocadas sem despertar emoção. Mesmo para os irremediavelmente perdidos, para quem a vida e morte são igualmente pilhérias, há assuntos  sobre os quais nenhuma pilhéria pode ser feita. A comitiva toda, de fato, parecia agora se sentir profundamente que no traje e na conduta do estranho não existiam  nem humor nem civilidade.  A figura era alta e descarnada, e amortalhada da cabeça aos pés nas roupagens do túmulo. A máscara que ocultava as feições era feita de modo tão próximo a se assemelhar ao semblante de um cadáver enrijecido que um escrutínio mais detido teria tido dificuldade em detectar o embuste. E contudo tudo isso podia ter sido suportado, quando não aprovado, pelos burlescos foliões em torno. Mas o fantasiado chegara ao extremo de assumir a caracterização da Morte Vermelha. Sua vestimenta estava salpicada de sangue     e sua ampla fronte, com todas as feições do rosto, aspergida com o horror escarlate.

Quando os olhos do príncipe Próspero pousaram na espectral imagem ( que com movimentos vagarosos e solenes, como que a sustentar plenamente seu papel, esgueirava-se aqui e ali entre os valsistas), viram todos que era tomada de violenta agitação, em um primeiro momento com um forte estremecimento, de terror ou aversão; mas em seguida, sua fisionomia enrubesceu-se de fúria.

“Quem ousa?” exigiu asperamente saber dos cortesãos próximos que o cercavam, “quem ousa nos insultar assim com essa zombaria blasfema? Agarrai-o e desmascarai-o — de modo que saibamos quem haveremos de enforcar nas ameias do amanhecer!”

Era no salão leste, ou azul, que se achava o príncipe Próspero quando pronunciou essas palavras. Elas reverberaram por todos os sete aposentos em alto e bom som— pois o príncipe era um homem bravo e robusto, e que música silenciara a um aceno de sua mão.

Era no salão azul que estava o príncipe, com um grupo de pálidos cortesãos ao seu lado. No início, quando falou, houve um ligeiro movimento farfalhante desse grupo na direção do intruso, que momento se encontrava quase ao alcance da mão, e agora, com passos determinados e majestosos, empreendia maior aproximação daquele que falara. Mas, em virtude de um certo assombro inominável que a  louca encarnação do fantasiado inspirara ao grupo todo, não houve quem se atrevesse a erguer um dedo para agarrá-lo; de modo que, desimpedido, ele passou a um metro da pessoa do príncipe; e, conforme a vasta plateia, como que a um único impulso, encolhia-se do centro dos salões para as paredes, ele abria caminho sem se deter, mas com a mesma passada solene e calculada com que se distinguira desde o início, do salão azul   ao púrpura— através do púrpura para o verde— através do verde para o laranja— através  desse de novo para o branco— e mesmo daí para o violeta, antes que qualquer gesto houvesse sido feito pra prendê-lo. Foi então, entretanto, que o príncipe Próspero, enlouquecendo de fúria e da vergonha de sua própria covardia momentânea, disparou apressadamente pelos seis aposentos, embora ninguém o seguisse, por conta de um terror mortal que deles todos se apoderara. Brandia no alto uma adaga desembainhada, e se acercava, em rápida impetuosidade, a dois ou três passos da figura que se retirava, quando esta, tendo

 atingido a extremidade do salão de veludo, virou-se subitamente e confrontou seu perseguidor. Houve um grito agudo— e a adaga tombou cintilando sobre o tapete cor de sable, no qual, instantaneamente depois disso, caiu prostrado em morte o príncipe Prospero. Então, reunindo a coragem selvagem do desespero, um bando de convivas arremeteu num tropel dentro do salão negro, e, agarrando o fantasiado, cuja figura alta permanecia ereta e imóvel à sombra do relógio de ébano, estacou ofegante de indizível horror ao descobrir que o sudário tumular e a máscara cadavérica de que se haviam apossado com tamanha brutalidade e violência não eram ocupados por nenhuma força tangível.

E agora era reconhecida a presença da Morte Vermelha. Ela entrara como um ladrão na calada da noite. E, um a um, tombaram os festivos convivas nos salões orvalhados de sangue de sua festa, e morreram um a um na posição de desespero em que tombaram. E a vida do relógio de ébano se extinguiu        junto com a do último folião. E as chamas dos tripés expiraram. E as trevas e a Dissolução e a Morte Vermelha estenderam seus ilimitados domínios sobre eles todos.

 

Para assistir ao filme, é só clicar no link abaixo:





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