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A Loja das "Turcas"
O texto escolhido de Áurea Nardelli discorre sobre a loja e família Adum em Mar de Espanha e o título é de nossa autoria em referência a outro texto de Dalva Magalhães
A LOJA DAS TURCAS
Áurea Nardelli
Para Mar de Espanha vieram da Síria, José Antônio e Santa, recém-casados. Tinham posses. Mamãe nos contava que Santa, muito jovem, magrinha, cintura fina, bastos cabelos bem penteados, chamava a atenção quando saía à rua. Suas roupas de seda ou brocado, a quantidade de joias que ostentava só fazia realçar sua beleza. Já a conheci mais velha, muito gorda, embora seu rosto continuasse bonito.
José Antônio montou grande casa de negócio, ali trabalhando até morrer. Criaram nove filhos, dos quais restam quatro: Emelina, Thereza, Adélia e Amil.. Mantemos a amizade.
Nagibe, uma das irmãs, nascera perfeita. Antes do primeiro ano de vida rolou de uma escada, o que lhe trouxe grande desvio da coluna. Com o passar dos anos, o desvio da espinha se acentuou, as pernas ficaram pequenas e sem jogo. Rosto normal, nada feio. Em casa arrastava-se por todos os cantos, jamais aceitou cadeira de rodas. Foi excelente cozinheira, foi a melhor balconista, arguta e persuasiva. Vaidosa, tinha joias caríssimas e os brincos de ouro, jamais os tirou.
Cuidava bem de suas roupas com esmero. Viveu até a idade madura. Deixou saudade e exemplo.
José Antônio gostava de ficar acocorado na porta da casa de negócio, fumando. Impacientava-se com as impertinentes provocações das crianças em suas idas para o Grupo ou quando voltavam. Um dia correu atrás de Alba que, para o irritar, fingiu rabiscar a parede recém-pintada. A Alba... pernas para que servem, correu mais do que ele e entrou em casa, quase vizinha da dele.
Ligada à casa de negócios, ficava a moradia. O quintal ia até a margem do Ribeirão São João, mais tarde fez divisa com o nosso, pois papai comprou a casa que ficava entre a nossa e a deles. Num tempo em que, raramente, os jovens estudavam no exterior, Name, o filho mais velho fez o curso de Engenharia nos Estados Unidos, onde morava um tia muito rica. Como nas famílias abastadas de Mar de Espanha, na casa desses nossos amigos, festejavam-se os aniversários com grandes festas. Certa vez, no aniversário de Emelina, Hilda lançou mão de um objeto que recebera em seu aniversário, não se lembrava de quem, fez o embrulho e levou para a aniversariante, esta fala com toda simplicidade: “ Eu te dei um igualzinho a esse” Era o próprio...
Aposentadas, depois de se distinguirem, Thereza em Manguinhos, Emelina no Ministério da Fazenda, voltaram a morar em Mar de Espanha, depois de morarem anos no Rio. Nunca desfizeram na casa de negócios, hoje chamada loja. Com um mínimo de visão, Emelina conserva a mesma vivacidade, trabalha em casa, no quintal, na loja. Construíram elas residência em frente à delas, só para acomodarem as visitas. Muito caridosas, nenhum pobre deixa de receber esmola esperada. Disseram-nos que colhem e as deixam em grande quantidade do lado de fora da casa. Quem quiser as leva. Adélia, casada, mora no Rio e trabalha no Ministério da Fazenda.

Foto de Carlos A. Carreira disponível no blog: Centenário do nascimento de Áurea Nardelli, cujo link se encontra abaixo
NARDELLI, Áurea. Uma família sem brasões - memórias. v.1, Juiz de Fora: ESDEVA Empresa
Gráfica Ltda. 1983.
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